O que pensa Maria Alzira Seixo...

"Levantado do Chão é, antes de mais, a epopeia dos trabalhadores alentejanos, a elucidação da reforma agrária, a narrativa dos casos, conhecidos ou não, que fizeram do Alentejo um mar seco de carências, privações, torturas, sangue e uma impossibilidade de viver. O relato do narrador (que não se dá na primeira pessoa narrativa mas curiosamente se trata a si próprio como «o narrador», na terceira pessoa- o que implica desde logo um efeito de sobredistanciação em relação ao modo brechtiano de implicação do leitor) ocupa todo o século, com incursões esporádicas e fabulares pelo passado que vão até ao século XV, mas detém-se sobretudo na série familiar que, em três gerações (Domingos Mau-Tempo, o seu filho João e seus netos António e Gracinda, esta casada com a outra personagem central, António Espada), vai conquistar a terra para as capacidades do seu trabalho, vai arrancar-se à vergonha das humilhações, vai preencher a fome de uma falta total. O romance é, assim, a história de um fatalismo desenganado, constantemente combatido pelo apontar da esperança dificilmente feita luta: os primeiros lampejos de ilusão surgindo com a República (e as poucas letras que a João Mau-Tempo ela dá - o único que saberá ler, antes da neta Gracinda, que aprenderá do namorado), logo esmagados pela justaposição idêntica de um patronato de linhagem que a GNR tem por missão apoiar; as perplexidades da guerra - a primeira, a de Espanha, a libertação da Europa e o recrudescimento da repressão policial em função da organização de uma consciência política a cimentar-se -, as reinvindicações do pós-guerra, as prisões brutais, os assassinatos, a inquietação dos anos sessenta e o advento do 25 de Abril (narrativamente marginalizado, significante máximo de uma centralização cultural e política que deixa os escusos recantos do País no costumado abandono), o despertar final das consciências, empurrado pelo sofrimento, pela vontade e por uma informação inevitável - os jornais, a rádio - culminando no ponto máximo desta gesta que é o da ocupação das terras, a constituição das cooperativas, esse «dia levantado e principal», 366. Romance político, pois; e sociocultural, no sentido mais pleno destes termos. Mas romance de uma nostalgia bucólica que só se não consente pelo impossível prosseguimento de uma atmosfera de brandura, romance de amores rústicos e mágicas ancestrais, romance que é um hino à natureza e um cântico da terra que deplora seus fins de tormentos dos humanos, gente feita instrumento, que custa a erguer-se do utensílio em que se tornou, mas que a crença no trabalho, no tempo e na vida alçam finalmente à luz redonda do dia."

SEIXO, Maria Alzira, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs 39-40.

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