O que pensa Maria Alzira Seixo...

"Em Provavelmente Alegria, assistimos a um prolongamento da problemática poética enunciada, com algumas modificações estruturais: as 98 composições que constituem o livro sucedem-se como um único e longo poema, de andamentos vários e motivação diversificada, mas de certo modo catalisada na já conhecida dinâmica amor/mar, a que se junta uma terceira componente, a do fogo, elemento devorador das coisas e dos seres que de modo complexo produz essa anulação de plenitude que é o silêncio, disseminando-se em referências múltiplas à figuração da estrela, motivo igualmente importante em toda a obra de José Saramago: «Assim o caos / Devagar se ordenou entre as estrelas», 14; «Lá no centro do mar (...) / (...) / Meu amor, minha ilha deserta, / (...) as mãos do vento, / Erguem ondas de fogo em movimento», 87.

Provavelmente Alegria é um livro cujo título aparece curiosamente fragmentado no seu segundo texto, Provavelmente (onde o tema da viagem aflora: «Que viagem prometida nos espera?»), sendo o primeiro um «Poema para Luís de Camões», e no quinto a contar do fim, Alegria (glorificação naturalista estilizada do encontro amoroso que alia o recorte popular da redondilha à tonalidade eufórica da ode renascentista de tipo anacreôntico), que anexa como excessos uma viagem no teu corpo», uma «água lustral (...) de sonhos e verdades», um «branco peito»- «cristais» ou «rosas» que sete versos desenvolvem na «macieza», na «sede» e na «vertigem», de um decadentismo com ressaibo a barroco: «Quando ao vento do sangue dobra as águas / E em brancura vogamos, mortos de oiro», e um final, Palma com palma, que são, no seu conjunto, alguns dos melhores poemas de amor de José Saramago. Este livro, onde o rigor da construção e a economia de meios é mais sensível, apresenta além disso um conjunto de textos extremamente interessantes para o estudo de uma poética geral de José Saramago: quatro poemas em verso livre de extensão relativamente regular, onde assoma o gosto pelo versículo, que irá mais tarde comandar a composição de O Ano de 1993.

Provavelmente Alegria prolonga, como referimos, a problemática poética exposta em Os Poemas Possíveis - mas anuncia igualmente vertentes novas e fecundas no itinerário do autor. «Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos. / Depois saberei tudo», 55. Esta preocupação gnosiológica assente na comunicação plena e indizível dos homens busca a sua expressão na lisura una que a forme, inconsútil e profunda, nada e criada, miragem eterna como penosa construção constante: «cada verso uma pedra», «um dorso de pedra que se arranque / Do poema profundo, dos ossos do chão». Uma construção do homem que é, desde logo, o sentido fundamental de toda a obra de José Saramago."

SEIXO, Maria Alzira- O Essencial sobre José Saramago- Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs 10-12.

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