O que pensa Maria Alzira Seixo...

"A Noite é, ousamos dizê-lo, uma peça de circunstância essencial, passa o paradoxo. Pensar de modo dramático o 25 de Abril (ou melhor, a sua recepção; e mais adequadamente: a sua notícia) corresponde a um fantasma positivo cultivado por todos nós (digamos assim, de maneira optimista). Com efeito, esta peça dá-nos conta dos acontecimentos que preenchem a redacção de um jornal de 24 para 25, com as suas rotinas, o seu desinteresse, as suas pequenas revoltas, os seus conflitos, os seus afectos, as suas bajulações, as suas conveniências- até à noticia do estalar da revolução e ao modo como o jornal, enquanto conjunto de pessoas que o fazem e enquanto veículo informativo, a concretiza. É, pois, uma peça de celebração, um hino a um tempo presente que arruma o passado, um escrito de construção gradual da euforia. Toma-se o grupo como meio fundamental da situação dramática, nele se distinguindo o corpo da tipografia e da direcção e administração como, respectivamente, força positiva e negativa, debatendo-se o conflito no corpo intelectual por excelência, o da redacção."

SEIXO, Maria Alzira - O Essencial sobre José Saramago-, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, pág. 34

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