O que pensa Maria Alzira Seixo...

"Nascimento da palavra, encontro da palavra, recriação do quotidiano numa dimensão estética original, eis uma das preocupações de José Saramago; e sempre na sua obra podemos sentir este fascínio pela novidade que surge de uma revelação fortuita que se desprende da rotina, este encanto pela palavra poética singular inexplicavelmente (artisticamente) arrancada à comunicação de todos os dias. Nesta temática se insere o lindíssimo conto intitulado O Ouvido, que faz parte de uma publicação colectiva, Poética dos Cinco Sentidos, de 1979; só que aqui, antes mesmo da primeira palavra, o exercício de congeminação e de captação da pureza inicial se aplica à própria origem do som, e essa relação que já notámos entre o verbo e a formulação do mundo, entretecida de sonoridades e de silêncios, feita primeira acção humana acompanhando o gesto - a manifestação oral. O ouvido, neste texto, mais do que um sentido passivo, articula a apreensão do som com a sua emissão e é esta, na sua complexidade gradual (vital e semiótica), que fundamentalmente cobre o corpo temático do texto. «O primeiro som, em tão grande silêncio nascido», é vibração cósmica, imediatamente canalizada para uma perspectiva humana ou cultural («corrente de ar», «respiração necessária») - e é preciso saber que a motivação pretextual deste escrito se situa na tapeçaria de Cluny que tem o mesmo título, e cujo corpo central, entre as damas, o leão e licorne, é um órgão -, é «um estalido de articulação, um murmúrio de músculos, o que for que seja sair do mundo de contemplar», e por isso indissociavelmente ligado ao gesto (atitude), que afinal lhe confere a essencial significação, que aliás pode ser (como é no texto) o surgimento da música. E Saramago conclui estas páginas com a abertura para os campos semânticos tão do seu agrado como a fundamentação humana da arte, a ideia que a apele e a grande plenitude que é a da satisfação que se segue ao efeito de comunicação: «Falta apenas que uma destas mulheres cante, para uma voz humana diga, por palavras nossas de humanos, o que tão grandes coisas significam. E, tendo-o dito, olhe para nós em silêncio» (final do texto)."

SEIXO, Maria Alzira- O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs. 25-26.

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