O que pensa Maria Alzira Seixo...

"Manual é o cadinho de elaboração de todas as tendências pré-ficcionais de José Saramago, e daí a sua grande importância e originalidade na consideração evolutiva da sua obra. Essa descoberta vai efectuar-se a partir da invenção do outro, isto é, do herói, e o Manual é justamente a história de uma personagem a tentar fixar-se, a tornar-se independente (relativamente, pelo menos) do autor. Assim, é neste texto que adquirem proporções importantes dois temas maiores da obra de José Saramago: o tema do duplo e o tema da viagem. Pela primeira vez escreve uma obra que se apresenta como um romance e que, deste modo, dispõe de personagens - personagens cuja consideração é conduzida por um ponto de vista fixo, o da primeira pessoa narrativa, que é herói do livro. Curiosamente, essa primeira pessoa narrativa aparenta-se com o sujeito condutor das crónicas, quer pela exposição subjectiva que pratica, quer pela experiência de que dá conta, quer ainda pela relação lúdica que entretece com a linguagem; no entanto, das crónicas não guarda a vibração emotiva ou crítica, apresentando pelo contrário uma prosa seca e económica bastante mais afim dos contos fantásticos de Objecto Quase. É, assim, um herói à deriva este que nos aparece no Manual, que assume a enorme responsabilidade de uma perspectivação narrativa sem possuir a espessura suficiente para a enquadrar e produzir. Verificamos a certa altura que se trata de um herói a construir-se (ou a descobrir-se) e que essa construção se processa pela escrita como meio de conhecimento. Com efeito, H. (inicial que o designa), pintor de retratos, sem talento, fabricante técnico de cópias de figuras sociais próprias para se pendurarem nos salões, começa a sua narrativa por dizer que está a pintar um retrato paralelo de S. (a personagem que oficialmente retrata para os académicos fins costumados) e por escrever as suas impressões sobre as insuficiências que reconhece na sua forma de expressão artística. Vários duplos assomam, pois, logo à partida: a relação literatura/ pintura, já patente no título, que dá origem à exposição dessa crucial problemática que é a da representação em arte; a relação objectual especular (dois quadros partindo do mesmo modelo e prosseguindo fins diferenciados), repartida entre a mentira e a verdade, a convenção e a autenticidade; a relação (decorrente da anterior) entre a ficção e a realidade, entre a escrita e a vida, propondo, a partir dos exemplos de Defoe, Rousseau e Yourcenar, que «toda a verdade é ficção», 134; a relação entre o ser e o parecer (S., que ele retrata, é realmente esse S. - e a atracção significante funciona na aglutinação entre a inicial e o deíctico - ou é outro?), a relação entre o eu e o outro - é a escrita em torno do ser de S., S de ser ou de Saramago, que faz avultar o ser de H., essa inicial mais que todas neutra e inoperante que começa a história («e como de ficção, se parte dos fios da trama são história?», 118) no reconhecimento da sua insignificância, alheado das coisas, dos seres e da vida, e justamente através da escrita, do percurso de reflexão que ela proporciona, acaba por se descobrir a si próprio como entidade relacional e propulsiva, capacidade determinante, actor das cenas do mundo, que termina a narrativa anotando o projecto de pintar o retrato do ser amado (de M.,- de mulher, de minha ou de meu, já que é o determinativo de posse selectiva que contribui para criar o sentimento de identidade), trabalhando agora, no fim do texto que é a ficção tornada verdade (encontro da vocação, encontro do amor, encontro da consciência política - a última página do romance é a pincelada breve e eufórica da madrugada do 25 de Abril), no seu auto-retrato, que dá a medida do encontro de si próprio através da deambulação pelos outros. Essa deambulação, percurso de escrita que inculca na personagem a noção de tempo interior e exterior que a pintura não pôde incutir-lhe («Sei disto um pouco, porque o aprendi em tempos, porque tenho pintado, porque estou a escrever. Agora mesmo o mundo transforma-se lá fora. Nenhuma imagem o pode fixar: o instante não existe», 172), aponta o tema da viagem, de feição alegórica central em toda a sua obra («caminhei em círculo e cheguei ao lugar onde estivera - depois de ter viajado», 274), tanto como de exercício de escrita, enquanto processo literário deste livro onde as páginas que o escritor escreve para mostrar aos amigos (aos outros) são apresentadas sintomaticamente como impossíveis crónicas» (sinal de uma entrada deliberada e protocolar na ficção) e como esboços autobiográficos em forma de «narrativa de viagem». Para além do que possa haver (e há) de autobiográfico no Manual, a noção de autobiografia funciona como efeito especular mais (biografia da personagem de dentro do livro, como retrato do retrato da personagem a retratar), como um acrescido desdobramento de duplicidades. Ora todo o sentido deste livro parece concentrar-se na passagem de um duplo descoincidente (e por isso alheado, insatisfeito, insituado) para a duplicidade coincidente que é o encontro perfeito do outro e de si mesmo - e a cena de amor com M., no final, é belíssima e de uma intersubjectividade perfeita. Por isso a «caligrafia» do título (noção académica e pictórica da escrita, imagética) se justifica por essa indicação de «manual» (a mão que se detém e insiste, na pintura, a mão que vai em frente na escrita, em relação à qual H. confessa: «é sobretudo a ideia de prolongamento infinito que me fascina», 54), sendo o manual o volume de iniciação que no entanto só pode iniciar porque parte de um repositório d conhecimentos adquiridos e facilitados - como a narrativa de viagens a Itália que H. nos dá nos seus escritos, entusiástica e banal soma descritiva de visitas a museus que lhe dão o sentido do conhecimento e a perfeita noção da relação espaço-tempo: «sem outra ideia senão a de contar uma viagem para depois lhe chamar exercício de autobiografia» (146), «viajo devagar. O tempo é este em papel em que me escrevo». Ou: das naturezas mortas que enchiam o atelier do seu tempo académico aos quadros de Lorenzetti, «os mais belos do mundo, duas paisagens miraculosas», passando pela imagem infantil da morte do pardal recordada pela contemplação das aves de Trubbiani em Veneza. Ou ainda: isolar pela palavra, no coração do espaço, a intensidade do tempo que decorre e se percorre."

SEIXO, Maria Alzira, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1987, págs. 28-30.

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