O que pensa Maria Alzira Seixo...

"Que Farei com Este Livro?, publicado em 1980, poderá consistir numa homenagem a Camões, já que é toda a problemática da publicação de Os Lusíadas que aqui se dramatiza: o desinteresse do rei e da corte, a miserável situação material do poeta e da sua mãe, as relações com a Inquisição, o negócio do impressor. No entanto, a força extraordinária que esta peça adquire, no seu respeito pela situação histórica (política, social e linguística), é a de justamente pode ultrapassá-la para constituir um libelo contra a situação desprotegida do escritor, que é de todos os tempos mas porventura mais nossa, mais atentos que deveríamos ter-nos tronado às relações de produção no meio cultural, nomeadamente no literário - e essa intenção torna-se mais sensível através da proeminência que na acção se dá a personagens como as de Diogo Couto e Damião de Góis, que alargam a simbologia do escritor-poeta à liberdade de pensamento e de contestação. No entanto, não se pode já falar aqui de corpos colectivos, como na peça anterior, embora o meio intelectual e o cortesão estejam bem marcados; trata-se, de preferência, de uma relação entre o indivíduo e o tempo em que vive, inóspito, opressor, indigno - e da relação deceptiva daqui decorrente. Aliás, a peste e o nevoeiro (figurando, respectivamente, a ambiência criada pela Inquisição e a mentalidade confusa do jovem rei D. Sebastião) são motivos alusivos recorrentes deste argumento negativo, onde só as ideias dos intelectuais podem ganhar raiz, amparadas pelo amor, por laivos de espírito de tolerância e pelo sacrifício maior da fidelidade à criação mediante a perda de tudo o mais. A visão que se dá do poeta sustenta-se em toda a força evocativa do seu tempo mas não é uma visão histórica, antes uma visão fabular, porque o destino de Camões inspira ao leitor pena, o de Damião de Góis admiração - e talvez que só a presença marginal, mas insistente, de Diogo do Couto reconduza o tempo aos seus próprios limites, porque decide abandonar a pátria regressando à Índia («Na Índia, não somos mais alegres, é verdade, mas a terra é outra, não terei mais obrigações para com ela, apenas viver», 122) e porque enuncia o programa trans-histórico verdadeiramente construtivo («Os melhores sonhos são os que se fazem com os olhos abertos, não os da cegueira», 52)."

SEIXO, Maria Alzira, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs. 34-35.

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