O que pensa Maria Alzira Seixo...

"No (...) capítulo sobre a crónica, forçoso nos é referir ainda este livro (...) que muito tem a ver, não só com o estilo utilizado nestes seus escritos, mas também com a mundividência e com a concepção do literário que os informa. (...) Será esta obra, em princípio, integrável na conhecida categoria dos livros de viagens, muito embora a realização da viagem no país de origem e de permanência (como aqui é o caso) não seja componente habitual deste tipo de literatura; neste caso, porém, preferimos integrá-lo numa zona de hesitação entre a crónica e a ficção (...), não só porque assume grande parte da caracterização com que abrangemos as suas crónicas mas porque constitui como uma história (quase uma ficção) em que o autor é «o viajante» e em que a especificidade das terras e dos seres com que se cruza durante o seu itinerário determinado pelo país, a sedução ou estranheza que sobre ele exercem, são tratados num registo de seriação descritiva, sim (como na literatura de viagens), mas fazendo avultar os saldos reflexivos e os desvios líricos, quando não irónicos (como na crónica) e, sobretudo, a componente mágica da sua selecção, o entretecer propositado ou casual de atitudes, a fulgurância dos encontros ou a lateralidade das emoções, como faria num dos seus romances.(...)"

SEIXO, Maria Alzira, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional -Casa da Moeda, Lisboa, 1987, pág. 19.

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