José Saramago expõe as sua convicções

"Expresso- Achas que os teus leitores crentes podem perguntar: que direitos tem um ateu confesso, um comunista, de vir reescrever a nossa religião?

JS- Eu não sei se era legítimo, agora que fiz, fiz. O que chega a parecer incrível é que, se nós imaginamos que Jesus não é filho de Deus, a nossa civilização está assente sobre coisa nenhuma."

ALVES, Clara Ferreira, " No meu caso, o alvo é Deus" in revista Expresso, Lisboa, 2 de Novembro de 1991, págs. 82-86.

"Isto é Senhor- Como o facto de ser ateu interferiu na construção do livro?

José Saramago- O meu ateísmo facilitou, e muito, na criação do Evangelho. Se fosse católico, teria que aceitar as versões bíblicas, sem me opor a nada. Como ateu, leio os Evangelhos de um ponto de vista mais livre, como se fosse um grande livro de história. O meu ateísmo não é destrutivo, mas sim crítico.

Porque é que, sendo ateu, se ocupa tanto de Deus e religião cristã, na sua obra?

José Saramago- Sou ateu, mas não sou tolo! A sociedade onde cresci e onde vivemos não se concebe sem Deus. Na arte, na linguagem, na cultura popular e erudita a religião cristã está presente. Eu não creio em Deus. Mas se uma pessoa que está ao pé de mim acredita em Deus, então Deus existe para mim através da realidade que é essa pessoa."

ROLLEMBERG, Marcello, "A Bíblia como romance" in Isto é Senhor, Brasil, 6 de Novembro de 1991, págs. 68-69.

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