Uma personagem chamada língua portuguesa

"Memorial do Convento: vão-se os olhos por este livro como música até Mafra. Música de cravo- e cravo que teima nos acordes mesmo quando mergulhado num poço. Porque, na verdade, esta crítica é um som. Um som que nasce do hábil arrumo de frase, que ora em memória (e não só) se apoia no decassílabo, ora na redondilha maior, ora ainda na redondilha menor, que senão noutros metros também. Só o atento ouvido dos olhos (passe a expressão) capta o itinerário e a pauta de semelhante música- e eis então que se ouve o português que todo um povo foi construindo e aperfeiçoando ao longo dos séculos...

Através desta língua, destas medidas, deste som- temos o acto da nossa História. Assim é: e aqui, no Memorial do Convento, temos o Convento de Mafra, a época de D. João V, o voo (antes do tempo oportuno e completo) da passarola voadora de Bartolomeu de Gusmão. Temos igualmente o hífen que, de uma palavra a outra, liga o povo de então ao povo que ora somos.

Autêntico quadro a óleo nas cenas de opressão de todo um povo (ou na denúncia das ridículas posições do poder), aguarela na captação de momentos líricos, e também desenho de traço caricatural em instantes que outro risco não merecem- este Memorial é um livro que toma o leitor nos seus longos parágrafos, o dissemina por numerosas molduras, o situa em variados redemoinhos, enfim, a respirar ao ritmo da língua de toda uma nacionalidade. Ritmo que muda (anunciando já outros tempos) o nome de Scarlatti em Escarlate...

Que a verdade é esta: o leitor transforma-se no corpo do Memorial, repentinamente é todo um, momentos se alcançam em que ele leitor, se está lendo a ele próprio. Saramago leva-o à escrita, desmultiplica-o por consoantes e vogais (e daí os muitos rostos que surgem, estão e não estão) plasma-o ao longo da narrativa. Torna-o desperto de sons e de pedras- e fá-lo construir o Convento de Mafra contra vontade. Mas o leitor (que é o povo de então, que é o povo de agora, que é a mesma nacionalidade de agora e de então) saberá libertar-se das ordens obscuras e arbitrárias do poder: e, um dia, voará. É uma questão de vontade, de vontades, um simples (e difícil) arrumo de coisas. Até porque uma língua (e a língua portuguesa, o Português, é a personagem maior nesta obra de Saramago) terá sempre novas palavras, novo ritmo, nova medida para ir ocupando o espaço dos tempos que se vão apresentado e que sempre hão-de vir.

Sem dúvida que o leitor, pelos passos de Memorial, pedreiro que é também da língua que lê, fala e ouve, muitas vezes (e já na qualidade de canteiro) a si próprio fará esta pergunta: «Quando sairei deste labirinto tão fechado, que não só me tem por entre paredes mil, como também me leva a construí-lo contra o desejo de voo que em mim existe?» E dando o braço a uma personagem que é a língua de toda uma nacionalidade de todo um povo, de toda uma independência e presença no Mundo, o leitor então sai mesmo para fora, exorbita, é ganho por aquela sábia perspectiva que mostra nem as coisas grandes, nem coisas pequenas, mas as coisas todas devidamente interdependentes umas das outras. Um todo, enfim.

Um todo só aparentemente parado: porque (como claro irrompe no decorrer do livro) respostas há muitas- e só as perguntas é que não são bastantes. Mas quando um povo aprende a fazer perguntas através da língua do seu berço, do seu suor, da sua aventura- então sim, surgem as respostas, e, surgindo as respostas, logo outro é o sentido da vida. É a passarola, é a aeronave, é o pé na Lua. E todas as coisas, assim vistas do alto, ganham as suas verdadeiras dimensões- e o Convento de Mafra limita-se a ser um grão da areia à superfície da Terra, reflectindo a pequenez de quem o ordenou e a grandeza de quem (a outros actos destinado) foi coagido a erguê-lo. Tal nos diz, ao longo dos mais diversos ritmos, e também ao som de Scarlatti (a quem o povo chamava Escarlate), uma grande personagem do Memorial: a língua portuguesa, o Português, em toda a sua longínqua memória, e em toda a sua força presente, activa- e voadora."

ALVIM, Pedro, "Memorial do Convento. Uma personagem chamada língua portuguesa" in Diário de Lisboa, Lisboa, 14 de Abril 1988, pág. 2.

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