Críticas

"«A Culpa» desconcertou porventura aqueles que esperavam, eventualmente, ver desenvolvido um projecto cultural e um processo de criação sem riscos, inatacavelmente sério. Não vale a pena recordar o que foi escrito na polémica de estreia em 1981, e cujos registos podem ser consultados na Cinemateca. No entanto, poderia dar-se nota de duas experiências bem distintas em que participámos, e porventura significativas: em primeiro lugar no Festival de Cinema Ibero-Americano em Huelva, em que ouvimos de outros membros do juri internacional, que haveria de outorgar-lhe o Cólon de Oro, os mais elogiosos comentários, sublinhados pelos aplausos do público espanhol - e só quem frequenta este tipo de certames, no estrangeiro, sabe como é difícil verificar-se uma efectiva adesão a um filme português.

A segunda experiência respeita a exibições especiais seguidas de debate, designadamente em localidades ao sul do Tejo, onde «A Culpa» suscitou algumas das mais concorridas sessões e das mais vivas discussões a que podemos assistir, em iniciativas idênticas... Recordar estes factos representa, afinal, inferir sobre aspectos que nos reconduzem para 'A Culpa': trata-se de um filme cuja matéria é sem dúvida determinante; paralelamente, António Victorino d'Almeida encontrou os meios narrativos e os modos de execução necessários a efectivar os seus intuitos e perspectivas, que ele próprio balizou nos seguintes termos: «não pretendi especificamente criticar ou enaltecer esta ou aquela classe, este ou aquele grupo de pessoas, procurando, pelo contrário, retratar com o mais possível de exactidão e de fidelidade a maneira de pensar, de falar e de agir dos personagens que julgo serem tipos perfeitamente reais identificáveis no quotidiano que se vivia em Portugal(...)

Focando a situação imediatamente anterior ao 25 de Abril, 'A Culpa' toma-o todavia por referência, na medida em que só com a revolução teria sido possível convocar tais reflexos, e proporcionar a subsequente reflexão. Um dos dilemas deste filme é assim, por certo, o amplo leque de assuntos abrangidos (misticismo, religião, demagogia, guerra colonial, hipocrisia, degradação social...), e a multiplicidade de géneros aflorados (comédia, melodrama, terror, surrealismo...). Sublinhe-se o carácter alegórico, a latente simbologia sobre um imaginário sujo, de abjecçaõ e histeria, absurdo e ridículo, conformismo e opressão, ritualizado pelo patético dos personagens estigmatizados e pelo peripatético dum matizado anedotário... Em suma, e por vocação, 'A Culpa' é, ainda hoje, filme de provocação."

J. Matos-Cruz, in folheto da cinemateca alusivo ao ciclo '25 de Abril' Imagens'

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