Deolinda de Jesus

"A minha mãe é a mãe mais amiga. Certeza com que eu posso contar. E nem por isso sou a imagem que queria. Mas sempre me soube aceitar". ("Deolinda De Jesus" do LP "Dar E Receber" - excerto)

Aos doze anos, o Tonito - como lhe chamava a mãe - parte rumo a Lisboa. Vem em busca dos sonhos, que insiste em tornar realidade. Para trás ficavam os trabalhos da lavoura que sempre que podia abandonava para ir ver as romarias e o folclore, a instrução primária terminada e um ofício que experimentara por pouco tempo.

Longe da sua aldeia, António descobre tudo o que o mundo tem para lhe oferecer. Viaja, conhece novos lugares e outras gentes. Escolhe os seus rumos ao sabor da aventura. E por fim, transforma-se numa estrela.

Mas as recordações da infância e da família não as irá abandonar nunca. No fundo, António Variações guardava ainda muito do rapaz ladino que tantas vezes fora apanhado a cantar frente ao espelho, e orgulhava-se de o assumir.

É rara a entrevista em que não fala da família. A relação com os irmãos, nem sempre pacífica considerava-a mesmo assim saudável. Afinal eram muitos e a culpa também era em parte do seu mau feitio. Mas é pelos pais, sobretudo pela mãe que Variações demonstra um maior carinho.

"Acho que eles são o melhor exemplo de um pai e de uma mãe, como um pai e uma mãe devem ser", diria numa entrevista em 1983.

Do pai - Jaime Ribeiro - que desde cedo ouvira tocar cavaquinho e acordeão, António dizia ter herdado a paixão pela música e lamentava-se por este nunca ter tido as oportunidades que agora a ele lhe eram concedidas.

Da mãe - Deolinda de Jesus - recebera a determinação e a coragem de lutar por aquilo em que acreditava. De condição social superior, Deolinda vira-se excluída da família por pretender casar com Jaime e é ela que o ensinará a ler e escrever anos mais tarde.

António visita muitas vezes a mãe - o pai falecera em 1976 - e o único irmão que aí havia escolhido ficar, sobretudo nas épocas de Natal e Páscoa. E é sem vedetismos que se mistura com a gente da terra, que ainda hoje o recorda com carinho e orgulho.

Em "Dar E Receber", António Variações dedicará dois poemas à sua infância; "Olhei Para Trás" que conta a sua partida para Lisboa e "Deolinda de Jesus", homenagem sentida à mãe. O álbum dedicá-lo-á - não em exclusivo, mas em primeiro lugar - aos pais, podendo ler-se na capa interior : "À minha mãe que me sorriu ao nascer, ao meu pai que tanto deu para receber tão pouco."

GONZAGA, Manuela, "António Variações - De soldado a general" in suplemento do jornal Diário de Notícias, Lisboa, 18 de Julho de 1983, p.p. 14 - 16

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