O Adeus do Variações

"Tenho pena de morrer, mas não medo. Tudo o que acaba me deprime. Mais pelo fim do que pelo acto em si." - palavras de António Variações à Imprensa, poucas semanas antes de morrer.

Em 1984, a SIDA era ainda considerada como "praga dos homossexuais" e raros seriam os casos diagnosticados em Portugal.

Em Junho, a comunicação social anunciava o grave estado de saúde de António Variações. Logo se levantam as primeiras suspeitas em relação ao problema brônquio asmático que levara ao seu internamento no hospital Pulido Valente no dia 18 de Maio e à sua transferência para a Clínica da Cruz Vermelha. "Aquele a mim nunca me enganou, está mesmo a ver-se que está com isso", podia ouvir-se um pouco por toda a cidade. Mas nem todos viraram as costas a António Variações. Na clínica, recebia a visita dos Heróis do Mar, companheiros do último disco editado já durante a sua hospitalização. Foi mesmo no hospital que ouviu uma das faixas na rádio, pela primeira e última vez.

No mês em esteve internado, António Variações emagreceu vinte quilos. Segundo palavras da irmã, mantivera-se lúcido sendo a tosse o que lhe provocava maior sofrimento, fazendo-o mesmo pedir para morrer.

E na madrugada de 13 de Junho, a morte levou o criador de "Estou Além". A polémica em torno da sua doença torna-se tema de destaque, não por preocupação com o cantor, mas por constituir para muitos o primeiro caso conhecido de SIDA em Portugal.

Broncopneumonia bilateral extensa seria a causa apontada para a morte do cantor, mas os cuidados extremos durante a autópsia e a selagem do caixão "por constituir perigo para a saúde pública" agravariam as suspeitas.

Ao velório na Basílica da Estrela acorreriam Amália, Maria da Fé, Lena D’Água e elementos dos Heróis do Mar. Mas a maioria seriam os jovens de liceu, as velhinhas, os colegas de profissão - barbeiros - que vinham assim despedir-se do seu ídolo.

Os restos mortais de Variações seriam depois transportados no dia 15 para o cemitério de Amares, onde se encontra sepultado.

As declarações pouco esclarecedoras dos médicos e os desmentidos mantidos até hoje pela família acabariam por encerrar a polémica.

Hoje me dia a SIDA é já olhada a uma outra luz e já não se considera ser o "castigo para homossexuais" de 1984. Se António Variações foi a sua primeira vítima declarada ou não é o que menos interessa. Interessa antes lembrar a descriminação e críticas de que foi alvo nos últimos tempos de vida.

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