O público de Variações

Quando fala um português. Falam dois ou três. E se o número aumentar. São outros tantos a falar. Ah! São tantos a falar. ("Quando Fala Um Português" - "Anjo Da Guarda" - excerto)

Excerto da música Quando Fala um Português - formato Windows Media

Quando escreveu este poema, António Variações não imaginava sequer que esses portugueses aos quais se referia viriam a falar tanto nele. Mas esses portugueses falaram e ainda falam.

Apesar de apreciações menos favoráveis de alguns críticos preocupados em definir o estilo do cantor, pouco tempo se seguiu entre o lançamento e a popularidade de Variações. A rádio passava as suas músicas em detrimento dos hits de língua inglesa, os convites para programas de televisão e entrevistas à Imprensa seguiram-se em catadupa logo após a saída do primeiro álbum que ultrapassava largamente as expectativas de vendas de um artista recém-chegado.

Variações tornara-se o exemplo de como a música pode chegar às mais variadas faixas de público, agradando quase a gregos e troianos, sem precisar de grandes elaborações ou artifícios. E terá sido essa sua simplicidade musical, aliada à forma excêntrica de vestir e estar em tanto em palco como na vida que o transformou num dos artistas mais consensuais da música popular portuguesa de todos os tempos.

Poucos seriam aqueles que não sabiam de cor as suas canções. Raros seriam os que nunca haviam comentado a sua postura. Uns gostavam, outros nem por isso. E havia mesmo quem o achasse um palhaço, ridículo ou efeminado. Mas a maior vitória de Variações foi, sem dúvida, ter posto um país inteiro a falar dele. Aquele país de brandos costumes que ele havia abandonado e que agora aos domingos se colava à televisão para o ver. Mesmo os vizinhos que sempre o haviam olhado de soslaio, agora cumprimentavam-no, de sorriso aberto.

E este público ia desde a dona de casa admiradora de Roberto Leal, ao adolescente fanático pelos Duran Duran, passando pelo intelectual enamorado pelos clássicos de Zeca Afonso. Dos sete aos setenta e sete anos, do Minho ao Algarve, do analfabeto ao mais letrado, todos se rendiam ao imenso poder de sedução de Variações. E era isso mesmo que ele queria com a sua recusa de rótulos ou restrições. Transmitir a sua mensagem a todos, e não às elites que repudiava.

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