Imagine-se, um homem de brincos

"Diz-me que loucura é essa que te veste de fantasia. Diz-me que te liberta da vida vazia" ("Sempre Ausente" do LP "Anjo Da Guarda" - excerto)

Quando se pensa em António Variações, a imagem que surge, talvez mesmo antes das suas músicas, é a da sua aparência. Extravagante, excêntrica, sofisticada, ridícula são apenas alguns dos adjectivos encontrados por muitos para descrever a sua forma de vestir e sobretudo de se adornar.

Quando surge pela primeira vez na televisão, logo o público se espanta perante o seu fato de ”aspirina” - que enverga para interpretar o tema "Toma O Comprimido" - e será esse mesmo público a espantar-se com o pijama com ursinhos e coelhinhos que usa na sua última aparição, semanas antes de morrer.

Uma das características mais inovadoras e que se vulgarizaria anos mais tarde seria o uso de brincos. António não se cansava inclusive de contar um episódio acontecido na Baixa. Duas mulheres haviam chocado com ele na rua e gritado espantadas: "Olha, uma mulher de barbas!"

Nos primeiros anos, após o regresso de Amesterdão, António chegara também a ser confundido com um estrangeiro e não eram raras as vezes em que nas lojas lhe pediam para repetir o pedido, julgando-o um turista. E era um turista que se sentia, um estranho na sua própria terra. "Sentia-me perfeitamente só, ao ponto de não ter amigos porque se recusavam a estar ao pé de mim. No entanto, nunca abdiquei de ser o que sou, e só comecei a ser recompensado por essa atitude quando houve pessoas que vieram ter comigo e me disseram ter sido eu o ponto de partida para uma estética que elas gostavam mas não eram capazes de assumir", diria numa entrevista.

António não ligava à moda, que considerava uma forma de tornar as pessoas iguais umas às outras. Preferia a estética, que cultivava até ao mínimo detalhe. Uma estética que muitos designariam de Kitsh e que estava bem expressa na decoração da sua casa e da barbearia. Mas as críticas depreciativas não o faziam alterar um só detalhe e em cada entrevista que dava assumia cada vez mais o seu gosto.

Tinha tudo a ver com a sua forma de estar na vida. Com o seu insaciável desejo de libertação. Não se achava extravagante, vestia-se de maneira diferente e colorida porque era assim que se sentia bem. E não deixava lugar para a indiferença quando aparecia em público com as suas roupagens de cabedal, calças turcas ou turbantes e de brincos e pulseiras a enfeitarem-lhe o corpo. Porque o António venceu o desdém dos costumes mais arreigados e deixou aos seus seguidores uma imensa mensagem de liberdade.

"António Variações morre sem espectáculo - Do Minho caiu uma estrela" in jornal A Capital, Lisboa, 14 de Junho de 1984, p. 21

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