Cantor de intervenção

A faceta interventiva das composições de José Afonso perpassa toda a sua obra, desde a época das baladas de Coimbra até aos últimos dias da sua carreira. Antes e depois do 25 de Abril, o cantor nunca deixou de abraçar causas e motivos que lhe pareciam justos nem de lutar contra o conformismo e o espírito acrítico. As suas canções são fruto dessa luta diária, dessa reflexão constante.

No período anterior à revolução, as músicas de José Afonso caracterizam-se por ser uma chamada de atenção para as duras condições de vida da população e uma tomada de posição contra a ditadura do Estado Novo. Através da sua arte, o cantor denunciava a falta de liberdade de expressão, a repressão, a hipocrisia de um regime alicerçado em fachadas e mitos decadentes, a guerra colonial.

Duma forma mais velada ou mais explícita, criticava-se "Os vampiros" que governavam o país, a interminável guerra colonial que afligia a "Menina dos olhos tristes", a polícia política que prendia e torturava quem não concordava com a situação. A PIDE foi aliás retratada abertamente, duma forma sarcástica e feroz, na canção "Na rua António Maria", que não chegou a ser gravada.

Excerto da música A Morte saiu à Rua - formato Windows Media

Várias composições falavam também de acontecimentos específicos. É o caso do tema "A morte saiu à rua",dedicado ao pintor José Dias Coelho, dirigente comunista assassinado pela PIDE, ou do "Cantar alentejano", baseado na morte de Catarina Eufémia, camponesa morta pela GNR durante uma greve.

Esta forma de cantar distanciava-se muito do chamado "nacional-cançonetismo", das canções promovidas pelo regime.

As suas canções causavam incómodo. Muitas delas foram censuradas e o cantor várias vezes foi parar à prisão.

O seu nome e a sua música ficaram para sempre ligados ao derrube do regime fascista que tanto criticou. A canção "Grândola, vila morena" serviu de senha ao "movimento dos capitães" que deu origem à revolução do 25 de Abril.

Depois da queda da ditadura, a sua veia interventora não esmoreceu. De cantor de resistência, passou a ser cantor e actor da revolução.

Os temas são agora a reforma agrária, a descolonização (retratada em "O homem novo veio da mata"), a luta contra o imperialismo dos "Fantoches de Kissinger", o poder popular, as ofensivas reaccionárias ("No dia da unidade").

José Afonso canta a revolução e as suas esperanças a plenos pulmões, intervindo no processo de construção de uma nova sociedade.

"Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta."

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