Professor

Para fazer face a uma situação económica difícil, José Afonso deu aulas em escolas particulares e oficiais. Em 1955 começa por Mangualde, no distrito de Viseu, para depois passar para a vila alentejana de Aljustrel. Segue-se o Algarve, com as aulas dadas em Lagos e em Faro. Ruma novamente ao norte, desta vez para Alcobaça. Passado pouco tempo volta outra vez a Faro, onde viveu "uma fase de euforia extremamente gratificante".

De 1964 até 1967, dá aulas em Moçambique. É muito marcado pela realidade colonial, que teve que enfrentar no papel incómodo de professor do regime, das classes dominantes colonialistas. "Contudo, confesso que me enganei. Infiltrei-me em alguns meios e ía conseguindo, com as minhas cantigas, dar os meus habituais recados".

O seu desempenho como professor esteve bem de acordo com a sua maneira de ser e de estar na vida. Um professor atento aos alunos e empenhado no avivar o espírito de reflexão, no pensar sobre o mundo.

"A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais".

Nem sempre a postura de José Afonso enquanto professor era bem compreendida pela sociedade da altura, pais e alunos, habituados a uma lógica de educação baseada na autoridade e na escolástica. "Recordo-me que tinha grandes dificuldades em conciliar os dois aspectos: a disciplina e o diálogo. A maior parte desses alunos aceitava o professor dentro dos moldes tradicionais repressivos e autoritários, e não davam crédito ao professor que se punha numa posição de diálogo".

A sua posição contra o regime levou a que fosse impedido de dar aulas no ensino oficial, em 1967, quando leccionava em Setúbal, continuando porém a dar explicações. Foi preciso esperar até 1984 para que se reparasse essa perseguição política e José Afonso fosse reintegrado no ensino.

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