Renovação do fado de Coimbra

Depois de uma época de euforia académica e fadista, em que cantava as "fórmulas" e temas do fado tradicional, José Afonso começa progressivamente a aperceber-se da falência dessa mitologia baseada na saudade e numa subjectividade exacerbada e contemplativa. "Os cantares de José Afonso deixam de aclimatar-se no processo de sacralização do fado de Coimbra. E, o que é mais importante, acabam por se revelar adversos de tal processo, manifestando-se abertamente contra uma ideologia passadista, conservadora dos pés à cabeça".

Inicia então uma fase de criação em que traz para os seus poemas e músicas preocupações que quase não existiam no fado tradicional. Na maior parte, são preocupações de carácter social, com as composições que falam, por exemplo, dos meninos "sem condição", das "meninas perdidas" do "Lago do Breu".

Há um diferente posicionamento do "compositor-estudante" face à realidade. José Afonso aprofunda o seu conhecimento sobre as condições de vida de outras camadas da sociedade, nomeadamente as mais humildes. Para esta mudança terá contribuído a situação económico-social que o cantor viveu nos últimos anos de Coimbra, casado e com filhos.

José Afonso contava que, "havia uma sociedade de indivíduos que viviam economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os estudantes regressavam. A visão poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina, um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com os meus dois filhos no Beco da Carqueja".

Ao nível musical também há mudanças, que se caracterizam pelo abandono progressivo da guitarra e um maior ênfase dado à viola.

José Afonso dá o nome de "baladas" às suas composições, para diferenciar do fado que se fazia até aí. Isso não impede que tenha influências de outros compositores de gerações anteriores, como Edmundo Bettencourt, "intérprete de fado e poeta que introduziu, de forma criadora, temas de canções beiroas e açorianas no repertório fadístico de Coimbra".

O movimento de renovação do fado teve outros interventores, quase todos provenientes do meio estudantil universitário de Coimbra. Cantores como Adriano Correia de Oliveira, poetas como Manuel Alegre, músicos como Rui Pato, António Portugal, utilizavam a sua arte como uma forma de denunciar situações. Foram vozes de protesto contra a ditadura de Salazar e Caetano e contra a guerra colonial.

A renovação do fado de Coimbra contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da canção de intervenção em Portugal.

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