O Dia da Liberdade

Um movimento singular, produto de uma acção planeada e executada exclusivamente por militares, sem grande comprometimento ou articulações com forças partidárias civis. A sua unicidade traduziu-se por essa autonomia e pelo objectivo de democratizar as instituições e possibilitar a resolução do problema colonial pela via das negociações.

Salgueiro Maia conta que a operação foi planeada sobre o mapa turístico de Lisboa.

A difusão das canções E Depois do Adeus, na véspera, e Grândola Vila Morena no próprio dia 25, deu o mote para o início das operações. Pelas 3 horas da manhã sai da Escola Prática de Cavalaria na Pontinha, uma força de 231 homens comandados por Salgueiro Maia com destino ao Terreiro do Paço.

Ao longo do percurso foram vencendo todos os resistentes que se lhes opunham: a Polícia de Choque, uma coluna da Administração Militar de Lisboa (AML) do Regimento de Cavalaria 7 (RC7).

Entretanto são lidos por Joaquim Furtado aos microfones do Rádio Clube Português ocupado os comunicados do MFA à população.

A madrugada avança sendo sucessivamente tomados diversos pontos fundamentais (edifícios públicos, órgãos de comunicação social -  RTP, Rádio Clube Português, Emissora Nacional; aeroporto; etc.) previamente designados com toponímica diversificada. Por todo país oficiais afectos ao Movimento tomavam as suas unidades. As principais autoridades militares refugiam-se com o RC7 no Quartel da Polícia Militar saídos do primeiro esconderijo, o Ministério do Exército.

Dá-se uma tentativa de reacção por parte do RC7 e Lanceiros 2, reunindo mais meios do que a EPC, mas Salgueiro Maia convence-os a render-se. A GNR faz uma derradeira tentativa contra a EPC que se revela infrutífera, retira-se e o RC7 adere ao MFA.

Entre as 15 horas e as 17 horas e 30 minutos têm lugar as negociações entre o posto de comando do MFA e Salgueiro Maia, por um lado e Marcello Caetano por outro. O ainda Presidente do Conselho contacta o general António Spínola para lhe entregar o Poder, no Quartel do Carmo, depois do aval do MFA.

Caetano e os membros do Governo são evacuados em blindados para a Pontinha. Ao fim da tarde, rende-se o Regimento de Lanceiros 2 e pelas 18 e 40 horas a RTP difunde o seu primeiro Telejornal livre onde reproduz o comunicado do MFA anunciando a rendição do Governo.

Restava neutralizar o último reduto de resistência fascista, a polícia política que provocava as únicas vítimas da Revolução ao disparar sobre a multidão aglomerada ao redor da sua sede: quatro mortos e dezenas de feridos é o balanço. A rendição só é obtida no dia seguinte.

Ao longo do dia e em acto contrário às solicitações do MFA, o povo foi ocupando a Baixa da cidade exultando de alegria, felicitando o golpe, entoando o Hino Nacional. Era a prova da convergência de vontades entre o povo e as forças do golpe.

Este dia que durou mais de 24 horas, teve a dimensão de uma nova vida de todo um povo que desperta de uma sonolência imposta ao longo de meio século.

[ CITI ]