Aldeia da Roupa Branca

Filme de Chianca de Garcia, cuja estreia teve lugar no Tivoli, no dia 2 de Janeiro de 1939 e que só por pouco não se tornou no primeiro filme sonoro português da Tobis.

Numa situação algo confusa na escolha do argumento e da empresa produtora, deixou de se pensar em transpôr para o cinema o argumento de Chianca de Garcia da "Aldeia da Roupa Branca" e como alternativa os a gentes da Tobis (empresa produtora que iria produzir o filme) deciam que a sua primeira produção realizada inteiramente entre nós, iria basear-se noutro argumento, este agora de Cottinelli Telmo (já de, certo modo, ligado à Tobis), que tinha já, da sua autoria o argumento da "Canção de Lisboa" , filme que tinha, por assim dizer, um carácter comercial, para testemunhá-lo basta observar o elenco do filme: Beatriz Costa, Vasco Santana, António Silva, Teresa Gomes… Todos excelentes actores e figuras gradas do teatro, no auge das suas carreiras e figuras de grande impacto junto do público.

Por fim, após algumas hesitações o argumento escolhido foi o de Chianca de Garcia e o filme acabou por não ser realizado através da Tobis mas sim, através de uma nova entidade produtora que na prática se constituíra exclusivamente para a produção deste filme.

A "Aldeia da Roupa Branca" foi produzida quase em tempo record: as filmagens começaram a 25 de Agosto de 1938 e estariam concluídas em fins de Outubro do mesmo ano.

O filme tinha por tema um assunto tipicamente português: um panorama pitoresco e cheio de carácter, com um conteúdo quer amável, quer ligeiramente irónico, com muita vivacidade, e com um tom agradável e simpático constantes. Retratava assim a típica região dos arredores de Lisboa e dos seus habitantes - os saloios, cuja actividade principal consistia ou no cultivo da hortaliça ou no lavar da roupa dos lisboetas. Para o filme construiu-se especialmente num terreno ao lado do estúdio uma típica aldeia saloia. Todos os seus pormenores revelam um preciso sentido de observação por parte de Chianca de Garcia, tornando-se este num dos seus melhores e mais destacados trabalhos do cinema português.

No que diz respeito à interpretação temos Beatriz Costa - a Gracinda do filme - já nessa época grande vedeta do teatro ligeiro e autêntica saloia como sempre afirmou orgulhosa, e que enche o filme com uma vivacidade e garridice muito suas, dando à personagem sentido, alegria comunicativa e uma simpatia transbordante; e temos também Manuel Santos Carvalho, no papel de Tio Jacinto.

Entre a cordialidade e a "luta" das duas famílias rivais, Beatriz Costa ou Gracinda, a lavadeira, emerge na sua frontalidade para "dar consistência a tudo e fazer acontecer cinema de cada vez que aparece". A "Aldeia da Roupa Branca" ficou assim, como o último filme da menina da franja, aos 31 anos, apesar de a sua paixão pelo cinema e pelo palco ter continuado.

Chianca de Garcia comentou a sua concepção de cinema português, da qual retirámos alguns excertos que julgámos interessantes: "Não se aprende a fazer cinema espontâneamente. Tudo necessita técnica, tudo tem as suas regras e os seus segredos."…"Progride conforme a experiência dos seus profissionais.", "Ensinar a ver deve consistir no seguinte: ensinar a ver com olhos diferentes. Não se deve procurar no cinema aquilo que existe no cinema estrangeiro"…"No cinema nacional procure-se aquilo que tiver carácter e realidade nacional."…"O cinema português deve contar-nos histórias que o povo sinta, compreenda e viva."…"Foi este pensamento que me guiou ao executar a "Aldeia da Roupa Branca"."

Crítica

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