Auto-retrato

"Sou uma cara de boneca de loiça num corpo de boneca de trapos."

"Vim do povo e, artisticamente, ao doce contacto dele tenho vivido. Se de todas as classes me afluíram estímulos e aplausos, os daquela de que sou filha são os que mais me consolam, fortificam e envaidecem."

"Sou uma mulher que lutou e conhece o pão que os oportunistas amassam. O que vale é que é que sou de boa cepa e fui amamentada a pão de milho e tive a água limpa do rio da minha avó."

"Quando era miúda, eu era muito malcriada, hoje sou apenas maliciosa".

"Falo como o nosso Eça: patrioticamente mal!"

"Tenho tido muitas coisas boas e muitas más, mas se pudesse voltar atrás tornaria a fazer tudo de novo."

"Gosto muito de Circo e de marionetas. Gosto muito de desporto...Sou uma fanática.(...) Sou por simpatia do Salgueiros."

"Assim como detesto os biocos, as arcas encoiradas, os mistérios, assim também não engraço nada com as murmurações, as intrigas, os malfazejos potins.

Amo a liberdade, o sol, o movimento: adoro a minha independência, vivo às claras.

Sou uma criatura estruturalmente alegre, desempoeirada, sensível ao bem que me façam e indiferente ao mal que me queiram.

Tenho o culto da disciplina e do trabalho, da camaradagem e da sociabilidade. Todos me querem bem desde os que mandam e dirigem, os empresários e os ensaiadores, até os que obedecem e servem nos postos mais obscuros, os porteiros, as mulheres das limpezas...

Os autores é de crer que também não se queixem de mim, nem os do poema, nem os da música.

(...) No entanto, sou mulher e bem mulher! Tenho um temperamento impulsivo e um coração vulcânico, embora, talvez, coberto de neve!...(...) Sou extremamente desconfiada."

"O meu primeiro amor? Foram todos os que se seguiram a esse... Só sei amar em força total. Amo o último homem como amei o primeiro. (...) Tenho tido vários amores (...) E fui casada com o homem mais educado, mais inteligente e mais compreensivo deste mundo"

"O Teatro passou a ser a razão do meu viver. O público, o objecto dos meus cuidados. Para ele vão, agora, os meus sorrisos. Para ele, envergo os meus trajos garridos.(...) É ele o meu namorado!

(...)Nunca seria capaz de deixar o Teatro pelo Cinema. Sou muito ciosa do meu público e dos aplausos com que me distingue, os únicos incentivos que através da minha carreira, tenho deparado. Não quero perder o contacto directo com ele, e que só o palco me pode dar. Mas, fazendo Teatro e Cinema, alternadamente, harmonizaria as coisas de acordo com as minhas preferências.(...) O Cinema deslumbra, mas, às vezes cega...

Não me importo de trabalhar com conta, peso e medida."

"O dinheiro não dá felicidade...Acalma os nervos!"

"Não gosto que me chamem "escritora" . Não sou como umas senhoras que se dizem intelectuais e que são muito arrogantes, coisa que felizmente não sou. (...) Tenho muito orgulho de ser filha de um moleiro, que morreu de barrete. Não tenho peneiras nenhumas."

"Velha? Nunca!...

Posso ter idade, mas velha nunca serei! (...) Não sou bonita. Não sou elegante. Mas ainda mando umas brasas por essas ruas fora. Não faço fogo porque não quero. Ainda me fazem cada proposta, deixe que lhe diga... (...) Não sou nada vaidosa. Sou muito simples. É evidente que me preocupo com a minha apresentação. Luxo, é que não. Vivo modestamente. (...) Não tenho inimigos. Nem rancores. Nunca tive ódios. Sou indulgente. Sei perdoar. Sou uma mulher sem fronteiras.(...) Uma mulher só o é quando não tem fronteiras."

"A última revista que fiz foi (...) no Teatro Avenida, com o Zé Viana. Chamava-se "Está bonita a brincadeira!". Foi uma bela revista (...). Depois retiraram-me. Sim porque não fui eu que me retirei. É que a minha presença era incómoda para certas pessoas e, por isso, cortaram-me a carreira." "A morte de Vasco Santana, António Silva e João Villaret fez com que me arredasse. Sem eles nada seria igual! Nunca voltarei a pisar as tábuas do palco!"

"Qualquer pessoa na minha situação, há tanto tempo sem aparecer num palco, era para estar completamente esquecida. Pois bem, eu estou num apogeu como estava em 40 e como estava em 37. Vou na rua e as pessoas reconhecem-me."

Conheço alguma coisa do mundo.(...) Não sou uma estrela internacional. Que importa?! O que sou, a mim o devo! E é esse o meu único título de glória - o único que exibo!

Tive um sonho nesta vida: ser vedeta de revista! Realizei-o, inteiramente. Nem todos se podem gabar de ver a sua maior aspiração tomar corpo, forma - realidade. Sinto-me feliz por isso.

(...) Que querem?! Sou assim! Nunca tive jeito para ser rainha. E, já agora, espero morrer como nasci: - na humildade e na paz da terra portuguesa!"

Beatriz Costa

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