Biografia

"Não sei se o Dezembro de 1907 corria invernoso e frio ou se a Primavera se antecipou, desejoso de florir o meu nascimento…"

COSTA, Beatriz, "Páginas das Minhas Memórias", in Jornal Cinéfilo, n. 198, primeiro semestre, 28 de Maio 1932, p. 13, s.l.

Beatriz da Conceição nasceu a 14 de Dezembro de 1907 no lugar da Charneca do Milharado, no Casal Barreiro, concelho de Mafra e baptizada no Orago de S. Miguel.

Filha primogénita de pais portugueses vai aos 4 anos de idade com a sua mãe para Lisboa, que viria a trabalhar em casa de José Malhoa e que depois passou a costurar no Casão.

Após segunda união matrimonial da mãe com um oficial inferior que pertencia ao quinze de Tomar, a família de Beatriz muda-se para esta localidade e aí permanece durante 6 anos (tempo em que acompanha o padrasto nas suas funções de carreira de tiro, perto do prado, e tem as sua primeiras surpresas do cinema).

Regressa a Lisboa e residiria, por pouco tempo, no Castelo, por motivos profissionais do seu padrasto, vindo a fixar residência na parte nova da cidade, perto da Avenida.

Foi ajuntadeira, trabalhando em casa, mas optaria pela profissão de bordadeira.

Espectadora entusiasta do teatro ligeiro popular teve como primeiro ídolo Lina Demoel e deixa-se absorver pelo sonho de vir a pisar os palcos do Parque Mayer, de se envolver pelo ambiente dos bastidores e de ouvir a crepitação das palmas. É então que família resolve dar-lhe a experimentar o teatro de revista.

Obteve a recomendação por intermédio de Fernando Pereira, cliente e amigo de um cabeleireiro vizinho de seu padrasto, que intercedeu por ela junto de Ema de Oliveira que se prontificou a escrever um bilhete de apresentação a António de Macedo, empresário, nessa altura, do Éden.

Estreou-se como corista aos 15 anos na revista reposta "Chá e Torradas" (1923) no Éden e seguiu em tournée para o Alentejo e Algarve e viria a ser crismada com o nome de Beatriz Costa por Luís Galhardo.

A 22 de Julho de 1924 participa na revista "Rés Vés" , no Teatro Maria Vitória e, dado o agrado da sua actuação, António de Macedo ensaia-la-ía no Teatro Avenida para um númerozinho que a "elevaria de posto".

Na manhã de 24/07/24, com 16 anos e meio, embarca no "Lutelia" com a Companhia para o Brasil e lá permaneceu até 1926. A bordo do navio foi repescada para cantar o número "Mademoiselle Garoto", o qual trisou (António de Macedo estava convicto da sua nova actriz).

O êxito foi crescendo em revistas e operetas como "Piparote", "Disparate", "Aqui D'el Rei", "31", "De Capote e Lenço", "Tim Tim por Tim Tim", "O Gato Preto", "As 11 Mil Virgens", "Rataplan", etc.

Com estreia a 12 de Agosto de 1924 no Teatro República, no Rio de Janeiro, contou com alguns papéis destacados na revista "Fado Corrido" onde cantou com igual êxito "Mademoiselle Garoto" e foi felicitada pela imprensa e pelos espectadores.

Na segunda revista, "Tiro ao Alvo", estava já encarregada de quatro ou cinco papéis.

Regressa a Lisboa já em lugar de destaque ao lado de Nascimento Fernandes em "Ditosa Pátria" , no Trindade, a 7 de Julho de 1925.

A 11 de Agosto de 1925 a Companhia do Trindade segue para o Porto apresentando-se no Sá da Bandeira e Beatriz faz a sua primeira ida como artista à cidade invicta.

De novo em Lisboa, em fins de Outubro de 1925, fazia parte da Companhia portuguesa de operetas organizada no S.Luís e enfileirou modestamente nos grupos de coristas e toma parte em várias zarzuelas: "A Monteria"; "A Canção do Olvidio"; "Os Gaviões"; "A Flor do Tejo"; e, em 1926, "A Moça de Campanilhas" e "O Pobre Valbuena".

De regresso à revista, passa pelos teatros "Joaquim de Almeida", "Éden" e "Maria Vitória" nas revistas "Fox Trot" , "Malmequer", "Olarila" , "Revista de Lisboa" e "Sete e meio".

Em 1927, e a traduzir uma moda cinéfila aparece pela primeira vez de franja e estreia-se no cinema em papéis episódicos de filmes de Rino Lupo - "O Diabo em Lisboa" - e, ainda no mesmo ano, havia dançado um tango em "Fátima Milagrosa" (do mesmo realizador) ao lado de Manoel de Oliveira.

Passou pelo "Mártir do Calvário" e pela revista "Água Fresca" no Apollo e depois por "Coração Português" e "Mãe Eva" com Eva Stachino. Transferindo-se com a Companhia de Eva Stachino para o Trindade, ali se estreou em "Pó de Maio" , onde conheceu o maior êxito da popularidade com o celebrado número "D. Chica e Sr. Pires" ao lado de Álvaro Pereira. A confirmação desse êxito viria com "Manda Quem Pode".

Na sua segunda tournée ao Brasil (1929), com a Companhia de Eva Stachino, ao Rio de Janeiro, foi recebida sobre as mais efusivas manifestações e relembrada a sua revelação como actriz nos grandes órgãos de imprensa da América do Sul. Em palcos brasileiros, a Companhia portuguesa de revistas apresentou-se a 19 de Setembro no "Lírico" com a revista de abertura "Pó de Maio" e com "Lua de Mel" como segundo espectáculo; e depois viriam, entre outras, "Meia Noite" , "Carapinhada" e "Mouraria".

Após breve excursão aos palcos de S. Paulo, Beatriz é convidada por Procópio Ferreira, comediante de indisputável relevo no teatro brasileiro, para ficar a trabalhar no Rio de Janeiro integrando o elenco da sua Companhia de comédias; mas a proposta seria recusada.

De volta ao continente, e ainda neste ano, Beatriz Costa aparece no documentário "Memória de uma Actriz" (com base nos artigos que já escrevia para "O Século" a contar episódios pícaros da sua carreira).

Em 1930 era a vez de participar no filme "Lisboa, Crónica Anedótica" de Leitão de Barros.

Experimentou a comédia ligeira com êxito marcado, estreando-se em "A Estrela da Avenida" e prosseguindo com "A Garota da Sorte".

Em Dezembro de 1930, durante a visita de Ressano Garcia, gerente da Paramount em Lisboa, recebe um convite de Blumenthal e San Martin para um contrato muito vantajoso para o papel da protagonista de "A Minha Noite de Núpcias" (da versão original "Her Wedding Night" de Frank Tuttle e que na versão portuguesa foi dirigida por Alberto Cavalcanti), o terceiro fonofilme em português a realizar nos estúdios de Joinville.

A curiosidade de uma viagem e de filmar imediatamente em Paris fê-la assinar o contrato no dia 23 de Janeiro de 1931.

Recebendo sempre provas de apreço desde o pessoal dos estúdios à mais considerada vedeta destaca das suas colegas estrangeiras Olga Tsehekova e Camila Horn.

Deixa a Companhia e é contratada por Corina Freire para participar nos êxitos de revistas como "A Bola", "Pato Marreco", "O Mexilhão" , "Pirilau" ou "Chá da Parreira".

Vai para o Porto trabalhar no teatro.

Numa ida a Espanha, a convite da Casa da Imprensa de Badajoz para uma festa, no Teatro Lopez Ayola, obteve estrondoso êxito ao representar "Burrié" e foi homenageada juntamente com os outros artistas portugueses que a acompanhavam (Amarante e Nascimento Fernandes).

Em 1933 a sua imagem perenizava-se n' "A Canção de Lisboa" e em 1936, aquando a lendária revista "Arre Burro", faz parte do elenco de "O Trevo de Quatro Folhas" , dirigido por Chianca de Garcia.

Em 1937 a Beatriz ganha ao lado de Vasco Santana os votos de preferência dos cinéfilos portugueses e são eleitos "príncipes do cinema português".

Entre novas revistas até ao fim da década, contaram-se "Há festa na Mouraria" (1937), "Sempre em Pé" (1938), "É Real" (1939); e ao cinema voltou para "A Aldeia da Roupa Branca" (1939, de Chianca de Garcia) no papel da lavadeira Gracinda - o seu último filme aos 31 anos.

Neste mesmo ano de 1939, Beatriz Costa aceitou novo convite para o Brasil (dada a sua enorme popularidade) para uma temporada que se prolongou por 10 anos (de 1939 a 1949), a que chamou "os melhores anos da sua vida". Quase sempre actuou no Casino de Urca, no Rio, desde os tempos do "Tiro-Liro-Liro" (um dos seus mais lendários êxitos) até ao final da década, altura do seu único casamento em 1947, com Edmundo Gregorian (poeta, escritor, escultor), de quem se divorciou dois anos depois.

Em 1949, Beatriz voltou aos palcos de Lisboa para uma revista no "Avenida", cujo título diz tudo sobre o mito que continuava a ser: "Ela aí está!". E, aos 41 anos, repetiu os êxitos de há 20 anos atrás.

Ainda apareceu em Lisboa em revistas de sucesso como "Com Jeito Vai", mas em 60 despediu-se dos palcos em "Está Bonita a Brincadeira" e decidiu que nunca mais.

A partir desta altura começa a dedicar-se às viagens por todo o mundo, assistindo a todos os festivais de teatro, de Ocidente a Oriente, e conheceu personalidades como Salvador Dali, Pablo Picasso, Greta Garbo, Edith Piaf ou o Rei Hassan II de Marrocos.

Depois do 25 de Abril - quando já vivia no Hotel Tivoli, onde viveu até morrer - começou a publicar livros sobre a sua espantosa vida (já anteriormente a " publicara" em vários capítulos nas "Páginas das Minhas Memórias" nos anos 30), aconselhada e incentivada por Tomás Ribeiro Colaço. De notar que não sabia escrever até aos 13 anos, mas aprendeu sozinha seguindo a sua ambição de saber (a sua alfabetização começou à mesa da "Brasileira" rodeada por homens como Almada Negreiros, Gualdino Gomes, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio entre outros.).

Após o seu reaparecimento num espectáculo da Casa da Imprensa que decorreu no Coliseu foi sistematicamente solicitada pelos órgãos de comunicação social e espantou-se com as óptimas reacções do público leitor em relação a essa outra faceta da sua vida - escrever.

Em 1977 é editado pela Emi-Valentim de Carvalho um álbum que compila vários dos seus sucessos musicais e que em 1996 seria reeditado com o título "Grande Marcha de Lisboa" na Colecção Caravela da mesma editora.

Apesar das muitas propostas para regressar aos palcos (por Vasco Morgado) preferiu ficar longe deles por considerar o teatro de revista muito diferente do que era, por "estar decadente".

Muitos foram também os convites para programas de televisão (por Joaquim Letria) e, de facto, viria a participar como membro de júri no concurso "Prata da Casa" apresentado por Fialho Gouveia e que visava lançar jovens no mundo do espectáculo.

Um grupo de jovens chegaria mesmo a propôr a sua candidatura simbólica nas eleições presidenciais de 85 como meio de comemorar O Ano Internacional da Juventude do ano seguinte.

Morreu dia 15 de Abril de 1996, aos 88 anos com a serenidade que os deuses deviam conceder sempre a quem propagou alegria à sua volta.

[ CITI ]