Canção de Lisboa

Estreou no dia 7 de Novembro de 1933, tendo como realizador cinematográfico Cottinelli Telmo, grande arquitecto, promovido naquela altura a realizador e ao qual pertence igualmente a autoria do argumento original. O autor do filme comentou antes da estreia do filme que devido à grande publicidade em torno desta película o público estava à espera de grandes maravilhas. A única maravilha era o facto de aquela ser um filme sonoro feito em Portugal nas mesmas condições em que se faziam no estrangeiro onde o cinema não tinha nascido ontem. Referiu ainda que tendo em conta a inexperiência da equipa o que conseguiram fazer andava perto do milagre.

Este filme beneficiou logo à partida de um conjunto de circunstâncias: foi o primeiro filme sonoro falado em português, realizado inteiramente em Portugal e com os nossos próprios meios; o ambiente publicitário que desde o início rodeou a iniciativa (nas páginas de revistas e jornais); do facto de se ter lançado um concurso de fotografia para a escolha de intérpretes e beneficiou ainda da presença de um conjunto de figuras estimadas e queridas do público do espectáculo nacional, cuja popularidade e simpatia estava já gravada no conceito dos frequentadores dos teatros de Lisboa e das províncias. Faziam parte do elenco Beatriz Costa, Vasco Santana, António Silva e Teresa Gomes.

No início pensou-se na actriz Maria Sampaio para representar a principal personagem feminina do filme, apesar de o seu papel em "A Severa" não aconselhar a escolha. Essa ideia viria a ser abandonada pois surgiu a hipótese de Beatriz Costa como vedeta dos palcos do espectáculo musicado português e com o seu nome já feito na revista. Os motivos da escolha de Beatriz foram os seguintes: para além da sua popularidade e de ser a mais lisboeta de todas as nossas vedetas, acrescenta-se o facto de, pretendendo a "Canção de Lisboa" focar a alma da cidade de Ulisses, surpreender os seus sorrisos, reflectir a graça, a singeleza, o espírito do seu povo, encontra-se ainda em Beatriz a encarnação da alma popular, num tipo característico e bem português. Não desempenhou nenhum papel de relevo, encarnando uma costureira gentil e sentimental com todo o seu profissionalismo e formando com Vasco Santana (o eleito do seu coração) o par mais cómico, mais fascinante e consistente do cinema português, é dos grandes pares de qualquer comédia.

É de salientar a sequência de "A Agulha e o Dedal", os seus comentários, a sua coroação, quando canta, tudo, para testemunhar o talento de Beatriz Costa. Dizem os críticos que nunca ninguém se mexeu como ela diante de uma câmara.

Participaram ainda neste filme um grupo de jovens estreantes escolhidos por concurso (já atrás referido). Foi a iniciativa deste concurso, em busca de futuros artistas de cinema, que movimentou grande curiosidade e interesse através das revistas de cinema do momento. Deste concurso foram apuradas 8 raparigas para aparecerem diante das câmaras junto de Beatriz Costa nas cenas da casa de costura do alfaiate e nas cenas da eleição da Miss Castelinhos.

No dia 18 de Junho de 1933 marcou-se o início da realização do filme que se prolongaria durante três meses e meio num excelente ritmo de trabalho (tratando-se de um primeiro filme). Dado que ainda não estava completa a construção do estúdio, para as cenas de interiores optou-se pela utilização da antiga Albergaria da Quinta das Conchas como estúdio cinematográfico. Nos outros locais e recantos da Quinta de maior superfície, filmaram-se as sequências mais importantes e movimentadas do Arraial do Bairro dos Castelinhos.

No que diz respeito ao sector técnico, destaque-se a participação de especialistas estrangeiros, principalmente oriundos da Alemanha e da França, não obstante, deve-se atribuir o seguinte elogio aos técnicos portugueses: Consta que a determinada altura, os técnicos estrangeiros, tendo outras responsabilidades a seus encargos nos seus países de origem, deixam confiadamente aos elementos portugueses a conclusão das tarefas já iniciadas por eles, passando estes a ser os únicos responsáveis em variados sectores da produção, sem receios de que este facto viesse a pôr em causa a qualidade da produção. Os nossos técnicos demonstraram assim uma enorme capacidade de adaptação e segurança no desempenho das suas tarefas.

Crítica

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