Sem Papas na Língua

"Comecei a escrever por brincadeira em 62, no Brasil. Era uma forma de ocupar o tempo, porque eu tenho de estar sempre em actividade. Não posso estar aqui a estragar o veludo dos sofás… Um dia li um capítulo que tinha escrito à minha comadre Zélia Amado, mulher de Jorge Amado, e como ela me entusiasmou continuei a escrever. Andei quatro anos a dizer que ia publicar o livro, até que um dia me resolvi e o livro saiu mesmo."

Da entrevista de Gina de Freitas a Beatriz Costa, "Beatriz Costa - um mito que se mantém" in Jornal Extra , s.l., 22 de Dezembro 1977


Há 15 anos que Beatriz Costa prometia um livro. Mesmo sem pensar em publicá-lo, foi escrito a pensar na censura e entregue ao editor somente após o 25 de Abril, apesar de já estar escrito há 10 anos. O livro saiu em 75: chama-se "Sem Papas na Língua" e é um repositório de mais de quatro décadas de Lisboa, uma Lisboa que foi mudando a sua fisionomia sem que o bicho Homem a transformasse à mesma velocidade. Neste seu primeiro livro Beatriz Costa conta como soube ultrapassar todos os maus momentos que se lhe depararam na sua vida teatral, que começou muito jovem, sempre corajosamente a lutar, para conquistar o lugar que desejava alcançar, e conseguiu.

As primeiras páginas da obra intitulam-se "Preparação Psicológica". Aqui fica um pequeno excerto:

"Não será propriamente uma biografia. Nunca gostei de contar a minha vida a estranhos… É mais do que isso… É um livro de verdades duras, que conta muito do que se tem passado comigo, para lá da cortina de seda… Profissional de alegrias, é natural que não me detenha em episódios dramáticos."…."Como tudo em mim sempre teve um ar folclórico, vou ser simples. Não me lembro de datas certas. Darei sequência aos acontecimentos e nada mais."

Nas primeiras páginas encontramos recordações de uma vida intensamente vivida: a história de uma menina vinda da liberdade do campo para as ruas da cidade grande, onde reinava a vilania e a maldade. A criança Beatriz, saiu pura e limpa de tão terrível experiência, isso compreende-se. Mas o que é admirável, é que tenha conseguido arrancar do coração qualquer mágoa contra a vida e a humanidade, que tenha superado a amargura e a desconfiança em relação ao ser humano e tenha feito da sua vida uma festa de alegria.

Com a leitura deste seu livro, vemos ser possível fazer do sofrimento um degrau na aventura da vida. É nítido o seu desprezo pela importância decorrente do dinheiro, do poder, de posições, de nascimento em berço de ouro. Desprende-se de cada página sua, um enorme carinho e ternura quando fala de tanta gente grande e boa que conheceu e tratou (desde artistas, escritores, actrizes a figuras de profissões, dos mais ricos aos mais pobres, do mais inteligente ao menos dotado) mas sempre com um fulgor de humanidade resplandecente no peito.

Beatriz Costa conseguiu somar ao amor dos portugueses o amor dos brasileiros. jamais traiu as suas origens, jamais renegou o suor do pai camponês, jamais deixou de ser a igual dos mais pobres e dos mais explorados, jamais abandonou a sua condição inicial e tem sido com ela solidária toda a vida.

É pois, um livro cheio de interesse, escrito com impetuosa sabedoria, sempre com graça, como uma conversa intíma da famosa actriz com o público, com os seus fiéis admiradores, contando episódios, histórias, comentando, elogiando, lastimando ou rindo dos tolos e dos snobes, lembrando saudosamente os grandes que já se foram. É um livro que se torna uma galeria de figuras imortais, de figuras do povo, retrata a vida artística de Portugal e do Brasil, a vida popular e a sua riqueza; o seu riso espontâneo, a sabedoria e a graça dos comentários, a sua alegria de viver, o comovido amor, a compreensão da beleza da vida e da grandeza do Homem - eis o livro de Beatriz Costa.

No capítulo final, Beatriz fala do seu povo: o povo saloio; traça o perfil do pai (devoção maior da sua vida), atingindo uma beleza densa, simples, poderosa, que prende, domina e comove o leitor.

Justificando o sucesso deste seu primeiro livro, Beatriz Costa comenta:

"Não tenho pretensões literárias mas penso que o sucesso do meu primeiro livro se deve , por um lado, ao facto de muitas pessoas pensarem que um artista de teatro deve ter muitas coisas picantes para dizer e, por outro, porque contas as histórias com bastante ligeireza, tornando o livro divertido e não maçador."

Da entrevista de Maria Catarina a Beatriz Costa, in Jornal A Capital, s.l., 4 de Junho 1977

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