Retratos

"Ri. Canta a plenos pulmões. Proclama a alegria de viver. Grita. Entusiasma como uma bandeira. Salta. Dança. Vibra como uma quadra popular. Tem nos olhos, na boca, nos gestos, no corpo, toda a alegria de uma feira de Julho… E manda os sentimentos, a pieguice, os espartilho burguês, a cocaína da tristeza sensual, tudo para o diabo que a carregue!"

F.S., "Beatriz, a popular", in Revista Imagem, n. 15, 20 de Março 1952, pp. 6-7, s.l.

Detestada por uns e amada por muitos, Beatriz Costa revelou um esplendor de carreira tal que cedo se tornou um dos "casos" mais sérios do Teatro ligeiro português, conseguindo agarrar multidões. Por isso mesmo, muitos os comentários e elogios ao longo da sua vida.

"É indiscutível que Beatriz está integrada na alma lisboeta que ela com a sua franja símbolo, é a mascote de Lisboa, o seu "porte-bonheur".

Tavares Fernandes


"A imagem de Beatriz Costa no cinema é sobretudo uma imagem frontal. Filmada de perfil, ou de esguelha, não está lá ou desvanece-se . Mas, quando a câmara a olha e olha a câmera, todo o mistério da fotogenia e outras coisas que tais, se impõem para nos estarrecer (...). Há a combinação da tal franginha com aqueles espantosos e espantados olhos do "cochicho da menina". A menina, nunca a mulher, ou a "excelentíssima senhora". E menina e moça do Cinema português, do Teatro de Revista português, ela e só ela o foi. Nunca ninguém antes nunca ninguém depois."

João Bénard da Costa


"Culta e elegante, artista popular e saloia - duas numa só: Beatriz Costa (...) é a saloia das meias listradas, é o garoto dos jornais, é a varina de arrecadas - é um tipo popular como os que ela criou em noites de glória induvidável - (...) e trata de pintores impressionistas e clásssicos, cita-nos escritores e fala de arte."

 "A Beatriz Costa tem a cara e a idade necessárias; ama d’amor a vida , namorou portuguesses, suecos, dinamarqueses, brasileiros, xintois, sei lá mais quem!, o seu riso é um esplendor, não gosta de efemérides, desenterrar mortos não é com ela, e cultiva um respeito irrespeitoso por medalhões, pelos bonzos, pelas academias e pelas bem-pesâncias que é mesmo um regalo.

Fala de homens como quem aprecia um cavalo pela qualidade dos dentes. Não está mal de todo, pois diz quem sabe que cada pessoa tem sempre um equivalente zoológico.

(...) Adianto um porém: Beatriz pode soltar as maiores bojardas que estas não soam como obscenidades. A não ser para ouvidos obscenos.

(...) Conhece políticos e tunantes, anarcas, fachos, chuchas e comunas, seres excepcionais e canalhas de coturno alto, reis a sério, com ceptro, trono e coroa; e reis de ópera-bufa.(...) Logo após a legalização dos partidos, foi frequentemente convidada, pelos dirigentes de um deles, a participar em reuniões, comícios, paleios. Não estava, nem está nessa.

(...) É uma mulher imprevisível e imponderável. Para quem possui da vida uma noção geométrica, quadriculada, programada e (afinal) inerte.

(...) Fala, gesticula, mexe, remexe. tremexe, ri, gargalha, olha, reolha, treolha. É maliciosa, mete palavrão pelo meio, conhece meio mundo e o outro, cumprimenta toda a gente, uma festa, um festim permanente, um alvoroço que recusa consumir-se nas labaredas das aparentes inutilidades."

Baptista Bastos


"Woody Allen concebeu um filme em que o actor sai da tela para a vida real; Beatriz Costa saíu da fita de celuloide dos anos 30 e manteve a juventude nos anos 90."

in Diário de Notícias, 19 de Março de 1990

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