Adido Cultural

De 1974 a 1981, Victorino d'Almeida exerceu as funções de adido cultural na Embaixada Portuguesa em Viena, proposto por Guilherme de Castilho.

Conheceu amargas dificuldades na carreira diplomática Hoje afirma que ao optar pelo cargo de adido cultural em detrimento do piano, assumiu uma opção errada. Esperava encontrar na Embaixada estabilidade económica, pois ser compositor não é garantia para quem tenha família. O que aconteceu foi ter passado 15 anos sem tocar. "Só encontrava dificuldades na Embaixada para tentar divulgar a nossa cultura. O pouco que fiz foi na clandestinidade e contra uma verdadeira sabotagem. Quando deixei o cargo de adido, fiz mais do que quanto tinha. Porque agora tenho a autorização que deveria ter com o cargo, mas na altura nada tinha. Causas? Por um lado, não há qualquer verba. Por outro lado, há um completo desinteresse pelos assuntos culturais dentro da Embaixada. Um diplomata austríaco em Lisboa sabe certamente quem é Amália, Sequeira e Costa, por exemplo, enquanto um diplomata português em Viena desconhece os nomes equivalentes austríacos até mesmo se calhar os próprios nomes portugueses."

António Victorino d'Almeida, in Nova Gente, 1983

Quando o Ministério dos Negócios Estrangeiros extinguiu o lugar de adido cultural, o Maestro continuou a exercer as funções na prática. Apoia os bolseiros portugueses e participa activamente no intercâmbio cultural.

Numa ocasião em que o Orfeão Académico de Coimbra visitou Viena, com apenas 72 contos para sustentar 58 pessoas, Victorino d'Almeida distribuiu os estudantes por casas de pessoas amigas, falhada a tentativa de os instalar num antigo quartel.

Quanto à possibilidade de voltar a ser adido cultural na Áustria, está totalmente fora de causa apesar de sermos o único país que não tem um representante cultural em Viena.

Certamente que o maior dos impedimentos no desempenho das suas funções foi a falta de pagamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que ainda hoje deve ao Maestro cerca de 28 mil contos. O processo está nas mãos dos tribunais, e tem sido tão polémico, que o Maestro pretende publicar um livro sobre o assunto. "Estou convencido que o Ministério dos Negócios Estrangeiros não tem nada contra mim, mas sim contra os adidos culturais. Trata-se de um problema endémico, que parece dar razão à tese de que a diplomacia foi uma coisa inventada por Maeternick quando não havia telexes nem telefones. A diplomacia concorre, hoje, com o Museu de Figuras de Cera, em que a vitalidade dos adidos pode assumir carácter altamente perturbador. Neste antagonismo entre o que está vivo e o que está morto, entre o concreto e o abstracto, o adido cultural só é bem aceite se não fizer nada, contentando-se em espalhar sorrisos pelos 'cocktails'. Como não é esta a minha vocação, a verdade é que, extra-oficialmente, continuo a desempenhar as funções de adido cultural, com proveito para o País e sem nenhum dispêndio para o Ministério dos Negócios Estrangeiros."

António Victorino d'Almeida in Nova Gente, 1983

 

 

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