Encenação

"No dia em que Carlos Avilez me convidou para dirigir esta peça e desde o momento em que aceitei o trabalho que a expressão «não vá o sapateiro além da chinela» me não deixou de matraquear a consciência... A questão será, evidentemente, saber onde acaba a chinela e também onde começa o sapateiro...

Por outras palavras: onde deixará de ter significado prático o elo de ligação ou denominador comum existente entre todas as formas de Arte? Até que ponto a especialização não representará estreiteza de vistas ou limitação para um artista?...

Seja como for, não é sem pesada consciência dos perigos e sem a mais sincera humildade que arrisco estes passos por terrenos desconhecidos – ou que nunca figuraram no meu passaporte de actividades...

Julgo que a «Sinfonieta» de Tardieu poderá ter, pelo menos, duas interpretações básicas: uma de carácter, digamos, «musical», os contrastes rítmicos e a dinâmica de cada palavra, numa paleta que vá da melopeia arrastada ao vertiginoso virtuosismo de articulação, do berro ao mínimo sussurro; outra, de carácter «teatral», em que não abdique de certos elementos da primeira interpretação, mas alicerçando-se essencialmente numa movimentação cénica e numa busca de significados que transcendam o mero jogo de palavras.

Levada às últimas consequências, a primeira hipótese acabaria por exigir verdadeiros cantores ou, pelo menos, uma certa especialização musical por parte dos actores. De qualquer forma, tornar-se-ia necessário um autêntico maestro – problema que não seria praticamente solúvel no nosso meio.

Bem pelo contrário, a versão «teatral» talvez permita um aproveitamento mais completo de todos os aspectos da peça, nomedamente o da caricatura de um concerto sinfónico, à qual me pareceu lícito acrescentar determindos elementos (os dois «bateristas», o «Beethoven», etc) que julgo adaptáveis à livre interpretação de grupo. Mais do que uma concepção teatral, o espectáculo nascido na «Sinfonieta» de Tardieu será o «flash» de uma improvisação controlada."

António Victorino d’Almeida, in brochura de apresentação de Sinfonieta, pelo Teatro Experimental de Cascais

 

 

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