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O Tempo da Máquina

" Não existe um esconderijo para o tempo. Podemo-nos dispensar de reis e de imperadores e, talvez mesmo, de Deus. Mas não nos podemos resguardar do tempo. O tempo vê-nos por toda a parte, dado que tudo à nossa volta está impragnado desse tempo constante (...) o tempo não passa (...) o tempo não faz tiquetaque. Nós é que somos passageiros e os nossos relógios é que fazem tiquetaque (...) o tempo devora tudo através da História."

GAARDER, Jostein, in O Mistério do Jogo das Paciências; p. 213; Editorial Presença; Grandes Narrativas; Lisboa; Junho de 1996

 

Quantas vezes não vimos já, nos folhetos que publicitam, peças de hardware e computadores, uma série de alusões a velocidades. O processador em Mhz, os tempos de acesso em nanosegundos e uma infinidade de valores relativos ao segundo muitas vezes muito inferiores a este último. A domesticação do tempo que surge em Inglaterra no séc. XIV, com a invenção do relógio mecânico pôs em risco a hegemonia dos livros de horas medievais. O dia de "sol-a-sol" passou a dividido em períodos, em 24 horas que constituem um dia, dias que constituem semanas e semanas que constituem meses e assim por diante.

Com a avanço da tecnologia, a menor fracção de tempo mensurável, o segundo, perde essa característica e entramos na dimensão dos números infintesimais. Essa transformação é também visível no tempo quotidiano. Os mass-media usam o conceito do "acontecimento-em-três-minutos", em que num curtíssimo espaço de tempo, apresentam, classificam e opinam sobre um determinado assunto, que muitas vezes ( infelizmente, a maioria ) requeria maior tempo de reflexão. Ás portas de uma sociedade de comunicação, assiste-se a um crescimento que é exponencial. A velocidade de assimilação do sujeito é inferior à velocidade a que a informação lhe chega, provocando um desiquilíbrio entre aquilo que ele quer apreender e aquilo que realmente pode.

Este facto acontece porque existe um espaço que por ser virtual, concentra, acumula e produz informação a velocidades por vezes exorbitantes. Isto acontece também por um fenómeno de globalização. Se existe um meio em que existe um único CP ( Content Provider ), o fluxo de informações que são transmitidos é claramente inferior, do que noutro no qual intervêem muitos mais.

Assim assiste-se a um aparecimento de uma nova concepção de tempo, que está relacionado sobretudo com o paradigma da aldeia global simbolicamente representado pelo computador pessoal. Existem já dispositivos que controlam o tempo com uma escala inovadora. A Swatch, empresa suíça de relógios, lançou em a 23 de Outubro de 1998, na presença de Nicholas Negroponte, os primeiros modelos de WebWatch, que funcionam sobre uma lógica a que os responsáveis da marca chamaram o novo Tempo Universal. O Tempo Universal é constituido por um dia que se divide em 1000 "Batidas Swatch" (que visualmente são definidas por @1000), sendo cada batida equivalente a 1 minuto e 26.4 segundos. Segundo esta empresa, com esta nova escala temporal dois sujeitos separados por meio-mundo podem combinar uma hora para se encontrarem, na Internet em BMT (Biel Mean Time) que é sempre o mesmo em todo o mundo.

Este tempo tem a sua referência em Biel, na Suíça, no quartel-geral da Swatch, onde está desenhado o meridiano que marca a passagem de um dia para o outro (um dia em Tempo de Internet, começa às 0h00m em Biel ( Inverno, Europa Central ), que equivale a @000.

Esta inovação, apesar de acualmente poder estar sobre a alçada de uma forte campanha de marketing, ela não é completamente errada nos seus propósitos. Como vimos anteriormente, a escal de tempo tem evoluido e tem sido alterada consoante as necessidades de um período que se avizinha. Portanto, não é de admirar que daqui a uma década, quando formos na rua e perguntarmos a alguém: "Desculpe, tem horas que me diga?" a pessoa responderá: 347.