
Democracia no Online
Os media (sobretudo a televisão, mas de onde não se
exclui também a Imprensa escrita) são hoje apontados como o "Quarto Poder",
responsáveis pela massificação e uniformização da sociedade, na dependência de
sinergias que se servem deles para, tal como uma "seringa hipodérmica", imputar
nos cidadãos as visões do mundo e dos factos que mais lhes convém. Com ou sem exagero,
o certo é que dificilmente os meios de comunicação tradicionais são apontados como
instrumentos de democracia.
No entanto, com o advento da era digital, a palavra
democracia passou a fazer parte da utopia real no futuro tecnológico. A Internet é
segundo George Gilder -um medium inerentemente democrático. Assim sendo, também
as publicações online seriam mais "democráticas" que a sua versão impressa.
Alguns investigadores apresentam argumentos neste sentido:
- Harold Innis, progenitor científico académico de McLuhan,
disse que quando mais pesado (hard) é o meio de comunicação, maior é a facilidade de
uma ordem política permanecer. O Hard domina no tempo, pelo reforço e celebração do
sagrado e do mito forte hierarquização. O soft domina no espaço, num vasto
território com periferias. Ao mesmo tempo que a passagem hard-soft gera a emancipação e
individualização do indivíduo, gera também sociedades mais democráticas, abertas.
- O conceito de rede, ao associar máquinas entre si, desloca
do centro para a periferia a inteligência do sistema, uma vez que se posiciona ao nível
do indivíduo um PC dotado de reais capacidades de processamento quer a nível da
emissão de informação audio-scripto-visual, quer no que diz respeito à sua recepção.
- Um sistema cujos filtros (no caso dos Jornais tradicionais,
a selecção do Gatekeeper) não permitem aos utilizadores estabelecer a sua própria
"filtragem" pode assemelhar-se a um mecanismo de censura. A Internet oferece
múltiplos sistemas de filtragem que os utilizadores podem escolher de acordo com os seus
interesses, o que a aproxima dos princípios democráticos básicos.
- Numa publicação online não há um verdadeiro controlo
sobre o conteúdo (dada a sua vastidão), e há quase uma coincidência entre o tempo da
publicação e o tempo real da notícia o que, se não permite a reflexão, também
pode evitar a distorção da realidade que o distanciamento temporal pode favorecer.
- Nenhuma publicação tradicional está acessível a todos os
cidadãos do mundo (normalmente está disponível numa determinada zona geográfica, numa
língua apenas). A Internet permite essa acessibilidade (bastando para tal ter acesso à
rede, e ao programa de tradução instantânea, nalguns casos logo disponibilizado pela
publicação), o que a coloca no sentido de uma maior democratização do meio.
- Uma publicação impressa apela ao consumo passivo por parte
do leitor (sem os benefícios da reflexão e da análise). Uma participação mais activa
no circuito da informação é sempre um passo em frente rumo à democracia. Não é por
acaso que Hitler defendia que era bom para o seu governo que as pessoas não pensassem.
- O jornalismo online altera profundamente o papel do
repórter e do editor. Primeiro, porque o jornalismo online coloca o poder nas mãos do
consumidor/leitor, que substitui a publicação nas suas funções de
"gatekeeper" da informação. É o leitor que selecciona e filtra as notícias,
ou pode aprofundá-las na medida dos seus interesses, em arquivos cada vez mais
acessíveis. Em segundo lugar, porque o jornalismo online abre um novo caminho no relato,
através de componentes técnicas dos novos media que
complementam o texto e a imagem, como sejam as componentes audio e video. Em terceiro e
último lugar, porque o jornalismo online pode servir de descarga de formas não
tradicionais de notícias e informações. Leibling disse certa vez que «A Liberdade
de Imprensa pertence a quem é dono dela». A Internet vem permitir que cada qual que
tenha um computador possa controlar a sua Imprensa.
No entanto, há quem veja a Internet (e, consequentemente,
o Jornalismo online), não como um instrumento democrático, mas como mais uma forma de
tirania, fruto não tanto do meio em si, mas sobretudo da utilização que lhe é dada:
- A Internet pode acabar por se tornar a voz de quem tem poder
- tal como aconteceu com os outros media -, delegando poderes de "gatekeeper"
às entidades poderosas (com ou sem razão, os portugueses assistiram a como o Ministro da
Cultura facilmente retirou da rede o Terravista por causa da alegada pornografia contida
num dos sites que albergava).
- A acessibilidade ao meio ainda está muito longe do
horizonte (e continuará a estar) dos chamados Info-pobres. Se acessibilidade é uma
possibilidade só para os que se situam no pólo oposto os info-ricos não
é possível falar-se em democracia, porque a mera possibilidade ou intenção não
significa concretização.
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