
Os processos heterogéneos de transição para a idade adulta, a pluralidade das relações afectivas, a mudança da relação com os pais no sentido de uma maior aproximação entre gerações, a escassez e precariedade do mercado de trabalho juvenil, são apenas exemplos das grandes mudanças actuais, mais visíveis certamente no século XXI. A adolescência será cada vez mais multifacetada e novas organizações familiares muito diversificadas, substituirão em muitos casos a família nuclear tradicional.
As famílias não terão, contudo, menos importância. Os agregados familiares tenderão a ser cada vez mais espaços privados emocionais e, na sua ausência, deverão ser criadas estruturas de apoio às crianças e jovens organizadas a partir do modelo familiar e não escolar.
Enquanto pensamos nestas alterações, uma mudança tranquila já começou. Crianças e jovens de todo o mundo estão a construir uma nova forma de estar no mundo, cada vez mais assente nos media digitais. Comunicam entre países distantes através da Internet, são capazes de fazer pesquisas de horas sobre os temas mais diversos e, sobretudo, apreendem rapidamente novos saberes. Vão formar a Geração Net!
O que certos teóricos que discursam sobre a escola actual (sem nunca lá terem ido) parecem ignorar, é que o saber deixou de ser linear e uniforme. Os jovens de hoje não aprendem só na família e na escola, apreendem novos conhecimentos em contextos muito diversificados, que vão desde o grupo de jovens, à televisão e Internet.
A televisão ensina muita coisa. É evidente que tem programas pouco instrutivos, sensacionalistas e manipuladores das emoções, mas é bom não esquecer a quantidade importantíssima de informação que veicula. Era bom que muitos pais conversassem mais com os filhos sobre a televisão e que os professores utilizassem extractos de outros programas para tornarem as suas aulas dinâmicas e eficazes. No entanto, a magia gerada pela TV a partir dos anos 60, em que a imagem e a cor parecem ter enfraquecido a comunicação escrita, está a ser substituída pelo fascínio da comunicação via Internet.
É difícil prevermos o alcance destas mudanças. Provavelmente, incentivarão nos mais novos o gosto pela pesquisa e pela descoberta, facilitarão a comunicação entre continentes, desenvolverão a possibilidade de encontro entre pessoas outrora sós. É possível que esta globalização não facilite a localização, isto é, temos de estar atentos para que o nosso parceiro não se preocupe mais com o contacto da Net do que com a nossa pessoa ali ao lado.
Há muitas coisas, no entanto, que já sabemos. A Internet fornece muitos conhecimentos a que os mais novos chegam mais depressa, porque dominam com muito mais facilidade as novas tecnologias. É assim que, em Portugal, muitos filhos que estão na escola, já mais instruídos que os seus pais, saberão ainda mais coisas através da Internet (...). Estes conhecimentos novos serão rapidamente apreendidos, porque se relacionam com perfis psicológicos característicos dos jovens de hoje, em que são visíveis o aumento da capacidade visual e auditiva e a rápida e global captação de concentração e da possibilidade em permanecer quieto no lugar.
Numa longínqua escola de Seia, num liceu tradicional de Aveiro e numa escola do Algarve, vi alunos de diferentes classes sociais pesquisarem na Internet com um à vontade impressionante. Alguns professores não se aperceberam ainda desta mudança. Em breve não serão os detentores do saber e serão confrontados com os últimos dados extraídos do computador. Os pais também não poderão perder a autoridade e, sem porem em causa a capacidade dos filhos terão de encontrar no espaço afectivo a capacidade de a manter firme.
É por tudo isto que eu gosto muito do Ministro da Ciência e Tecnologia. Sem se pôr em bicos de pés para aparecer nos jornais e televisão está a proceder uma revolução tranquila: ao colocar a Internet nas escolas básicas, ao divulgar muito melhor os concursos para projectos científicos e os incentivos à investigação, ao estudar os oceanos, está a provocar uma grande mudança em tantos sectores da vida nacional(...)."
SAMPAIO, Daniel, A Geração Net e o ministro, in Notícias Magazine, 8 de Março, 1998