
Don Tapscott escreveu «Growing Up Digital - The Rise of the Net Generation»
curiosamente a pensar nos adultos que hoje detém o poder nas empresas, na sociedade e na
família. O objectivo é abaná-los, para que se evite, amanhã, um choque geracional de
grandes proporções. Deu, por isso, voz aos adolescentes e jovens que nascerem e
cresceram, sobretudo na América do Norte, já "dentro" da emergência da
economia digital e do predomínio das comunicações. Revelou a sua face
"construtiva" e desmanchou calúnias e mitos sobre a jovem geração.
Dez anos depois de ter escrito Mudança de Paradigma [Paradigm Shift], acha que o seu
ponto de vista se tem confirmado, ou foi mais uma «buzzword»?
Don Tapscott - Eu acho que a ideia de mudança de paradigma quanto à natureza e papel da
tecnologia no mundo dos negócios se aguentou muito bem ao longo desta década. Continuo a
encontrar por todo o lado onde vou homens de negócio e líderes a usarem o conceito. Ele
popularizou-se.
Mas qual foi a sua efectiva contribuição? O discurso do novo paradigma já vinha
detrás...
D.T. - As pessoas tinham começado a falar da aprendizagem para toda a vida, do
teletrabalho e das comunicações em rede. Mas eram conceitos dispersos, não estavam
interligados. Desde o meu livro, que se começou a ligar aquelas ideias a mudanças reais
no nosso comportamento. Mas é preciso ir mais longe, mais fundo na mudança de paradigma
a nível empresarial.
Mais fundo ainda, com uma maioria de empresários e gestores que tremem só de ouvir
essas suas "ousadias" teóricas (que esperam sinceramente que nunca passem disso
mesmo)?
D.T. - Veja o caso que eu abordo neste meu livro - o da geração Net. Ela está a
praticar - falo de praticar, não de discurso - o trabalho em equipa, a partilha de saber e a globalização, ao usarem no dia-a-dia as
novas ferramentas. Estas actividades e comportamentos - absolutamente naturais, neles -
não toleram a hierarquia do modelo empresarial clássico, nem mesmo a da família
tradicional. Será muito interessante, nos próximos anos, ver o que vai acontecer nas
empresas e nas famílias que se recusarem a uma comunicação mais aberta e a um
conhecimento partilhado, quando esta nova geração se tornar adulta.
Este livro que agora editou sobre a nova geração vem na sequência de A Economia
Digital [The Digital Economy]. Continua a apostar na ideia da emergência de uma nova
realidade económica e social, apesar de muita gente responsável a continuar a ignorar?
D.T. - Sim. Estamos a meio de uma revolução tão importante como outras anteriores na
história. As comunicações em rede e os media digitais estão a mudar radicalmente a
forma como fazemos os negócios, como nos divertimos e estudamos.
Seria completamente ingénuo julgar que os miúdos não estão a ser afectados por esta
vasta mudança social, política e económica. Escrevi Growing Up Digital quando
descobri que a gente jovem está muito mais preparada do que nós para a mudança. Ela cresce naturalmente com as novas tecnologias, algo que nós -
adultos - tentamos agarrar. Chamei-lhe "geração Net" porque é a primeira leva
a nascer com acesso a estes novos media.
Você escreveu que essa geração de miúdos controla facilmente aspectos essenciais
dessa revolução. Essa é uma "vantagem competitiva" incrível. É a primeira
vez na história que isso acontece, não é? Será que os adultos, no poder, não terão
imenso a recear da irrupção desses pequenos guardas-vermelhos da Web?
D.T. - De facto, pela primeira vez na História da Humanidade, as crianças têm mais
conhecimentos, do que nós, sobre um aspecto - direi crucial - do desenvolvimento da nossa
sociedade. Isto é bom para aqueles adultos que são capazes
de aprender com os miúdos. Mas mete medo e gera receios à multidão de todos os
outros. Pais e professores crêem que já não conseguem "proteger" os miúdos
da pornografia ou da literatura que inflama ódio [mas não está ela ao virar da
esquina?]... Há dois extremos, ambos conservadores, nesta discussão: um dos lados vê
estas crianças como "vítimas coitadinhas" e o outro como perigosos
guerrilheiros. Em que ficamos? Um cínico dirá: são as duas coisas. A meu ver, ambos
são pontos de vista nocivos para a liberdade de expressão e os direitos da criança.
Contudo, depois da derrota, nos Estados Unidos, da Lei da Decência nas Comunicações,
que esses extremos acalmaram um pouco. Isto ajudou a Net e trará mais gente para o «on
line».
Fala, também de mundos paralelos, realidades sobrepostas, entre a nova geração e os
adultos de hoje. Já não é um fosso - como na nossa época de jovens em relação aos
nossos pais. O que é que quer dizer exactamente com essa distinção entre o «gap»
geracional (o tal fosso que nós vivemos há 30 anos atrás) e o «lap» geracional de
hoje?
D.T. - Nós falávamos de fosso geracional - o «gap» - para ilustrar o cisma entre nós
[a geração nascida no pós-guerra, conhecida por «baby boomers» na designação
inglesa] e os nosso pais. Nos anos 60, não concordávamos em nada com eles. Havia um fosso...de atitudes. Hoje, o problema não é
esse. A separação entre gerações não é fundamentalmente sobre atitudes - mas sobre
competências e aptidões. Deixo-lhe uma adivinha: se um pai e um filho se puserem à
frente de um PC em casa para aprender a usá-lo, qual dos dois ganha facilmente a
dianteira?
Mas porque é que há essa diferença de velocidade entre o miúdo e pai?
D.T. - Tem a ver com os estágios de desenvolvimento humano. Como as crianças estão numa
fase de crescimento rápido, conseguem assimilar mais facilmente as novas tecnologias,
interiorizá-las na sua vida do dia-a-dia como algo "natural", enquanto que
nós, adultos, temos de nos adaptar. "Reciclar", não é como se diz? Ora, a tal
reciclagem, a adaptação tenta reconciliar o novo com o velho (é o nosso mecanismo).
Pelo contrário, a assimilação absorve pura e simplesmente o novo (é o mecanismo dos
miúdos) - não tem de reciclar nada! A reciclagem - o nosso caso - é, por isso, um
processo de aprendizagem muito mais difícil e doloroso.
Há, então, o perigo - ou a sorte, depende do lado da barricada - de um novo Maio de
68, fruto de uma nova rota de colisão entre gerações?
D.T. - Um novo Maio de 68 é um cenário bem real. No livro, eu falo de quatro cenários possíveis. O desfecho deles depende basicamente
da vontade e da capacidade de nós, adultos, entendermos os nossos filhos ou não. Se
apoiarmos as empresas e as comunidades da geração Net, se participarmos na partilha do
saber e na construção de novas relações, então a aliança entre duas gerações
poderá ser a mais forte de sempre da História. Mas, pelo contrário, se continuarmos a
exigir submissão à (nossa) hierarquia nas famílias e nas empresas, então caminharemos
para uma colisão sem precendentes.
Voltando ao tal «lap» geracional. Nós começamos a assistir a um virar de permas
para o ar da própria hierarquia do saber. Os miúdos sabem e fazem coisas que os adultos
não são capazes ou sentem uma terrível dificuldade. Quais são as consequências desta
inversão de poder nas escolas e dentro da família?
D.T. - Quando as crianças se tornam "mestres" em
determinadas áreas - sublinho que isto está a acontecer pela primeira vez na História!
- isso muda radicalmente o conceito de autoridade na família, nas escolas e noutras
instituições. Estes miúdos, no futuro, não vão querer trabalhar para organizações
tradicionalistas, em que há um patrão tido como o suprasumo. Tal tipo de autoridade
está a desaparecer!
Daqui a dez ou quinze anos como será o equilíbrio do poder no mundo empresarial e
político com a entrada na vida adulta dos mais velhos desta geração Net?
D.T. - O futuro não se adivinha. Constrói-se. Nós adultos temos de ter uma atitude
positiva em relação à cultura jovem, à sua tecnologia, para evitar amanhã um choque
geracional profundo.
E qual é o grande impacto no marketing que está a provocar esta geração
"ligada"?
D.T. - Estes miúdos são a primeira geração a tornar o comércio
digital uma realidade. Os homens do marketing têm de perceber isto rapidamente.
Um dos pontos que sublinha é que há um renascimento do espírito comunitário, um
hábito que se tinha perdido com o PC. Mas quais são as principais diferenças entre as
comunidades «on line» jovens e as dos adultos?
D.T. - Os miúdos entram e criam mais cedo essas comunidades.
E para os miúdos são coisas para gente "normal", não são comunidades
fechadas para tecnólogos ou maluquinhos dos computadores.
Será que a TV vai renascer e voltar a ter os miúdos de volta colados ao televisor? E
o PC estará mesmo morto enquanto máquina "estúpida" e
"individualista"?
D.T. - A TV está morta e ponto final. Está a ser
literalmente comida pela Web - as redes de TV no futuro não serão mais do que um
«site» adicional na Web. Quanto ao computador pessoal está morto, sim, no sentido de
que ele se tornou uma rede e a rede se está a tornar o computador. A computação
"pessoal" é cada vez menos pessoal - as pessoas usam os computadores para se
relacionarem com os outros. É cada vez mais interpessoal. O PC tornou-se um meio de
comunicação.