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| Qualquer
enciclopédia nos diz que "o humor utiliza um estilo espirituoso e
irónico". Mas para alcançar este estilo é crucial
ser rigoroso. Não há nada mais sério que o humor. Só
trabalhando com inteligência se pode exercer esta arte
com algum sucesso. É o caso de Herman José. Influências O nosso humorista vai buscar ao excelente poder de observação e à experiência pessoal, a inspiração para fabricar as suas rábulas e as suas personagens. As suas?! Não as dele... O Tio Herman é uma autêntica esponja a este nível. A nossa sociedade é meticulosamente satirizada e são evidenciados muitos dos "tiques" das classes sociais, do poder político, da Igreja e do panorama audiovisual. O mundo que nos rodeia é capturado por Herman José, para depois ser reinventado. |
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O humor que ele utiliza tem pontos de contacto com cómicos estrangeiros, nomeadamente com Benny Hill, Monty Python, Woody Allen e mesmo Jô Soares. No primeiro e segundo casos estamos perante o verdadeiro "british humor" que sempre foi uma fonte de inspiração para Herman José.
Todos eles se caracterizam por um estilo corrosivo, irónico e provocatório, onde o "non-sense" e os trocadilhos reinam. Mas apesar de várias influências internacionais, o humor por ele utilizado não ultrapassa a fronteira lusa, por duas ordens de razões: a primeira é simples e deve-se ao facto do artista não querer sair do país, a segunda explica-se na utilização de um género que é muito localizável, nada universal, só compreensível pelo cidadão do nosso pequeno Portugal.
O público ao qual Herman se dirige é lato, embora todos o compreendam de modo diferente. As várias classes sociais, culturais e etárias apreciam o humor que utiliza. De qualquer forma, o sucesso é maior entre as camadas mais jovens, que não se cansam de repetir as expressões das inúmeras personagens, por ele caricaturadas até ao limite. Não é assim, cambada?! Trabalhos O Grande Criador tem um método muito peculiar: depois de "beber" influências do quotidiano, apresenta as suas ideias aos amigos em mini-espectáculos privados, para perceber que tipo de reacções suscitam. |
Outro balão de ensaio é a rádio. Foi aí que nasceram muitas personagens que depois ganharam vida própria na televisão.
Os textos dos programas sempre foram escritos por Herman José, exceptuando as rubricas Boião de Cultura e Herman Zap (incluídas no concurso Parabéns) que eram criadas pela empresa Produções Fictícias. Parece que colaboração deu frutos, já que muito da actual Herman Enciclopédia está a cargo de outras pessoas.
A escolha e a direcção de actores mantêm-se sob a responsabilidade de Herman, para quem é muito importante trabalhar com uma equipa que lhe seja familiar. Isso permite uma maior estabilidade profissional e altos níveis de confiança pessoal. Assim, revendo todos os programas televisivos do nosso artista, constatamos que as pessoas que com ele trabalham são, no essencial, as mesmas de sempre.
O ritmo de trabalho é alucinante, e poderá mesmo dizer-se que o Tio Herman é um "workaholic". Por isso tem necessidade de fugir à rotina, e recorre a vários tipos de actividade: programas de TV, rádio, publicidade e espectáculos É um ver se te avias!
Fases
Numa análise mais abrangente, e como todo o ser humano, também Herman José atravessou por várias fases durante a carreira. A primeira de todas foi aquela em que percorreu o país de lés-a-lés, fazendo espectáculos, e que culminou num dueto: Sr. Feliz e Sr. Contente, acompanhado pelo pai artístico Nicolau Breyner. Um início de carreira difícil, em que o cómico carregava o "pesado fardo dos valores estabelecidos", existentes na nossa sociedade. Esta é a fase do camelo Calma, Diácono, calma Estamos a citar Nietzsche na teoria dos três estádios da vida.
A segunda fase inicia com o programa Passeio dos Alegres de Júlio Isidro, no qual Herman não só fica conhecido do grande público como também inicia a ruptura com os princípios anteriormente seguidos. Agora, temos um artista que dá largas ao poder de fogo crítico, de forma muito habilidosa. Os temas e sectores da sociedade considerados tabus deixam de existir. Nada nem ninguém estão livres da corrosão humorística. Tal Canal consagra de vez a inteligência mordaz do artista e, mais tarde, é criado na mesma linha o Hermanias. São dois programas marcados por uma irreverência pouco habitual naquela época e que feriram alguns poderes instalados, em especial os político-partidários. Mas, o que reforça definitivamente esta fase é o Humor de Perdição, por quebrar de forma quase obscena com os tais "valores estabelecidos". Daí que não surpreenda a proibição do programa, retirado abruptamente pelo poder confortável de uma maioria absoluta. Herman tinha-se transformado num "leão".
A terceira fase é uma consequência lógica da anterior. Herman sai ferido do caso "Perdição" e quando regressa aparece meigo, suave, bem comportado, jogando num produto radicalmente diferente (tanto na forma como no conteúdo): Casino Royal. Aqui não temos uma figura corrosiva, temos alguém que não quer beliscar a mentalidade e a moral reinante das elites. Mais tarde aparece o concurso Roda da Sorte, que Herman simplesmente apresenta. Depois concebe Com a Verdade M´Enganas e apresenta igualmente o concurso Parabéns. É neste último espaço que Herman se assume rapidamente como um guardião dos nomes de prestígio do nosso país, através das suas entrevistas, nada históricas e bem sociais. Aparece-nos um Herman conciliador que convida políticos, escritores, actores, músicos... É um homem que está de bem com todos e que, durante anos, não levanta polémicas. O único momento de sobressalto é no caso "Última Ceia", que aliás coincide com o final desta fase. Nietzsche diria que estamos diante da criança, em que se criam "novos princípios de avaliação". Entretanto, o humorista é autor de duas passagens de ano: Crime na Pensão Estrelinha e Hermanias especial. Estes dois "devaneios", numa fase tão estável, são a confirmação da regra pela excepção, que o filósofo alemão já previra neste tipo de situações, ao afirmar: por vezes, "na criança está presente o leão".
E agora? Que fase atravessa Herman nos dias de hoje? Teremos de aplicar a "teoria do eterno retorno", e o cómico de riso infantil torna a ser leão? Que figura se lhe seguirá, então? A de uma prometida carreira política? E, assim sendo, teremos um Herman na fase do camelo? O futuro a Deus pertencezzz !!!