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Perdição

Aqui, o artista perdeu não só a pena como também o pio. Entrevistas a personalidades do glorioso passado nacional, escritas por um Miguel Esteves Cardoso já referência da direita lusitana, vinham irritando em surdina o establishment político-partidário. A ira súbita do Conselho de Gerência da RTP podia ser inexplicada, mas era perfeitamente explicável. E durante semanas uma névoa baixou sobre as conversas em Portugal inteiro, alterando mesmo a reumática ordem de trabalhos da Assembleia da República para se discutir: haveria democracia, depois de proibido o humor?

O mal estar ideológico foi tal que ambas as partes se viram na obrigação mútua de salvarem a face. Numa questão de meses, Herman apareceu em público a recitar actos de contrição, ao mesmo tempo que a velha senhora aceitava jogar no Casino Royal, para dar um ar da sua graça. Era o pacto exigido pelo regime, entre monopólio estatal e talento privado, a bem duma imagem europeia de "liberdade com responsabilidade". Nenhum deles mentia, apenas concordava em não dizer toda a verdade, num casamento de conveniência que ainda hoje resiste tranquilamente ao passar do tempo. Talvez porque o humor tem razões que a perdição desconhece…