EXPERIÊNCIA REAL E EXPERIÊNCIA VIRTUAL
Autores como Michael Heim sustentam que a formação de experiências virtuais na vida quotidiana é algo que fazemos naturalmente (e essencial) como forma de criar pontos de referência que nos integram no mundo e nos permitem comunicar uns com os outros. No entanto, são muitos aqueles que defendem que é possível traçar uma distinção efectiva entre a experiência real e a virtual e, portanto, ponderar sobre as consequências da intersecção entre uma e outra.
Por um lado, argumenta-se que a experiência virtual supera a real. Esta afirmação baseia-se, em primeiro lugar, no aumento da facilidade de acesso àquela. O medo subjacente é que a sociedade se torne dependente dessas novas e excitantes experiências a que acedemos através do simples clicar do botão. O resultado é que as experiências reais poderão constituir uma desilusão, visto não serem tão instantâneas e de tão fácil acesso como as proporcionadas pelos multimedia.
Em segundo lugar, o domínio da experiência virtual é infinito, uma vez que aquilo a que temos acesso na comunidade virtual pode ser classificado como real ou fantasia. A preocupação subjacente é a de que a sociedade estará tão absorvida a expandir os limites da experiência virtual, que a experiência real passará para um plano secundário.
Esta hipótese é assustadora para muitos, pois não há nada mais gratificante do que as experiências em primeira mão, i.e., para experimentar verdadeiramente um pastel de nata, tem que se comer um pastel de nata. No entanto, também é igualmente verdade que não há pastéis de nata que cheguem para todos, especialmente tendo em consideração que muitos são gulosos e quererão comer vários! Esta verdade, embora triste não deixa de ser verdadeira.
Ainda que a experiência real possa ser mais satisfatória, há mais coisas na vida do que a satisfação dos desejos primários: por exemplo, cada vez mais turistas querem ter a experiência vivida das maravilhas do mundo, sem terem a consciência que, por outro lado, constituem a principal ameaça a essas mesmas maravilhas.
Com a população a atingir vários biliões, não nos podemos dar ao luxo de permitir que cada um realize as suas fantasias, especialmente se à custa do meio ambiente e das diversas culturas e espécies. Para além destes efeitos, acresce que nem todos têm possibilidades de experiências em primeira mão, devido aos factores de tempo, custo e risco envolvidos, criando também no universo virtual um fosso entre inforicos e infopobres, à semelhança das diferenças existentes no mundo real.
Idealmente, a experiência real deveria ser gerida de modo a ser acessível a tantas pessoas quanto possível, até ao ponto em que não constituísse um perigo para o equilíbrio do planeta. A experiência virtual seria então encorajada sempre que a experiência real não fosse uma opção viável.
À medida que a tecnologia progride e que os limites da experiência virtual se expandem e optimizam, esta passará a ser incorporada e aceite como parte integrante da nossa vida de todos os dias. O acesso à educação, ao entretenimento e à comunicação avançaram rapidamente desde a criação da internet e televisão interactiva. Isto não pode ser visto como algo de negativo, pois acrescenta recursos que serão úteis para o mundo real.
Quer gostemos ou não, a experiência virtual veio para ficar e para se tornar a experiência por excelência das gerações futuras. Esta transformação é inevitável, tal como o foram a introdução do telefone e da televisão, media que hoje fazem parte da nossa vida quotidiana, ao ponto de não prescindirmos deles.