A GERAÇÃO NET
Por séculos, se não por milénios, os filhos receberam o saber dos pais e dos avós. Mas pela primeira vez a espécie humana depara-se com um processo inverso, ou seja, são as crianças que dão aulas aos adultos. Mérito ou culpa desta mini-revolução é a chegada do computador e das novas tecnologias. Ou seja, as crianças, criadas com os videojogos e o microchip, estão anos-luz à frente dos pais. Que ficam parados em frente de um monitor, incapazes de encontrar um ficheiro ou de navegar na internet. Essas crianças já não constituem um ou outro exemplo, são, hoje em dia, um facto. E é com o passar dos anos que a diferença se acentua, face a toda uma geração nada e criada com um computador à frente e que não compreende como poderia o mundo funcionar antes, sem.
Uma desgraça? Para Don Tapscott, futurólogo e autor do livro "Growing Up Digital", pelo contrário: um maná. O motivo: A Geração Net dará vida a uma sociedade menos autoritária e mais levada ao diálogo. Enquanto a geração precedente (a nascida entre o pós-guerra e os anos 60) cresceu embalando-se passivamente diante da televisão, os jovens de hoje divertem-se interagindo uns com os outros através do computador. Resultado: a Geração Net formará uma sociedade mais colaborativa, menos hierarquizada e burocratizada, com um maior nível de educação. "Defrontamo-nos com um conceito de autoridade mais alargada", explicou Tapscott. Cujos estudos derivam da discussão feita via internet com cerca de 300 jovens entre os 4 e os 20 anos. "85% de entre eles sabiam mais de computadores e de internet que os pais. E já há milhares de crianças abaixo dos 10 anos com páginas Web. O que está a criar uma cultura inteiramente nova".
É inútil dizer que para além da nova cultura se preparam grandes mudanças no campo do trabalho. Visto que os mesmos jovens tecnológicos dentro de alguns anos serão os novos empregados-técnicos-operários-dirigentes. E já há quem pense nesses termos (sobretudo nos EUA). Por exemplo, a Hewlett Packard, na Califórnia, ofereceu livros de Tapscotts aos seus dirigentes afim de melhor compreenderem "o que acontecerá quando esta geração chegar e como mudará o modo de trabalhar". Não faltam os problemas, diz Tapscott: para as crianças das famílias pobres, afastadas do mundo digital, os chamados infopobres, cavar-se-à ainda mais o fosso que os separa dos seus contemporâneos mais afortunados. "Mas isto é um problema que deverão ser os governos a resolver, bem como todos os que detém o poder, e os pais. Os governos poderão favorecer a aquisição do computador nos meios mais desfavorecidos. E isto não é uma questão social ou ética, mas antes económica, dados os benefícios daí resultantes para a riqueza geral".
É verdade que estas são opiniões e não profecias. Não poucos observatórios estão cépticos sobre os efeitos das novas tecnologias a breve trecho. E nem sequer são os pessimistas, visto que a possibilidade de o controlo da tecnologia acabar nas mãos de uns poucos não ser uma questão assim tão remota. Um nome acima de todos: a Microsoft de Bill Gates, que com o sistema Windows domina o mercado mundial, encontrando-se neste momento sob acusação de violação da lei antitrust nos EUA.
Porém, Tapscott insiste: a televisão é passiva, enquanto que o PC e a internet querem dizer habilidade, diálogo, e-mail, chat, interactividade. Neil Postman, presidente do departamento de cultura e comunicação da Universidade de Nova Iorque e autor de alguns livros, faz parte dos super-cépticos: "Se fores um bom leitor - diz ele -, um bom escritor, um bom ouvinte, então és tu a comandar o jogo".