IDORU

Neste seu livro, William Gibson fala de Rei Toei, cantora pop inexistente, criada por designers informáticos. "É real?"; "Claro. Existe dentro da máquina". E fala de Rez, ídolo pop criado por agentes e produtores, feito de carne e osso, mas acima de tudo de "celebridade", fluido que é no romance a própria essência do nosso tempo: "As celebridades vêm ter connosco para serem criadas". Rez quer casar com Rei Toei: entre eles não existe uma oposição binária (verdadeiro/não verdadeiro), mas uma diferença de grau (diversos equilíbrios de realidade/invenção).
Sabemos que as criações do imaginário são reais; estamos habituados a pensar que a imaterialidade dos sinais não corresponde a nenhuma materialidade de que valha a pena falar. Quando o mundo dentro do computador se torna povoado e sensível, e o mundo fora se desmaterializa, as barreiras e os confins entre os dois atenuam-se, as relações reestruturam-se. Porém, a integração não é perfeita. A idoru é uma "embaixatriz de um país imaginário" que, quando olhada nos olhos, dá ao interlocutor "a impressão de passar para além do limite".
Na refeição de Rei Toei com Rez, no restaurante, a própria comida que ela (a representação virtual do "ela" virtual, um holograma) ingere é um holograma de comida.
A realidade virtual de Gibson não é uma representação, antes uma realidade, sendo o espaço dentro do computador ilegível num dado momento, no outro random do exterior. E é neste mundo desordenado e opaco que encontramos as mesmas personagens e as mesmas narrações que povoam o nosso imaginário, bandidos e piratas, heróis e damas em perigo, em espaços que não são já o grid geométrico que nos habituamos a identificar como espaços virtuais, mas os espaços abertos do Novo México ou cidades com edifícios e publicidade em néon.
A realidade real de Gibson é uma realidade mimética, onde os edifícios de Tóquio estão cheios de nanochips que os adaptam e refazem em função dos tremores de terra que vão sofrendo, onde a realidade inserida nos computadores corresponde melhor aos arquétipos que criámos.
