O ESPELHO DE LACAN


No seu seminário de 1953-54, Lacan utilizou um elaborado diagrama para explicar as dinâmicas da formação do ego. Através da combinação de espelhos planos e curvos, um sujeito imaginado é levado a ver dois objectos distintos, uma jarra e um ramo de flores, como se este estivesse contido naquela. Este truque feito com espelhos, segundo diz Lacan, é o mecanismo necessário da desidentificação, através do qual as pessoas podem imaginar que possuem uma identidade coerente. No diagrama de Lacan, o espaço virtual "por detrás" do espelho plano é onde o sujeito imagina (através da desidentificação) que o seu Eu existe enquanto unidade (mais do que uma qualquer desorganizada colecção de identificações). Este espaço virtual também contem o reflexo do olho do sujeito - o lugar do sujeito virtual -, que poderia, como sugere Lacan, olhar para toda esta trapalhada e vê-la enquanto tal. Este parece ser o espaço para o analista, mas parece também ser um espaço impossível - uma análise de fantasia, que poderá finalmente não ser mais do que uma espécie de protecção conjunta -, que teria que ser construído através de uma desidentificação qualquer, tanto quanto a assumpção do sujeito da posição de todo o ramo na identidade da jarra. No entanto, parece que o virtual é onde está a acção, apesar do seu estatuto impossível. O trabalho de análise tem lugar entre um analisando que imagina que é - ou, pelo menos, que deveria ser - inteiro, e um analista que tem algum investimento em discernir claramente a fragmentação do analisando. Ambos operam em espaços que acabam por ser escuros e inabitáveis.

Voltando à questão do jogo da livre identidade na internet, podemos estar a ver a invocação de algo semelhante à Lacaniana situação analítica. Uma boa parte da discussão sobre o potencial liberatório da internet assenta na presunção de que se pode assumir algo parecido com a posição do sujeito virtual. Há uma espécie de expectativa do trabalho de auto-terapia que se desenrola por detrás do plano do ecrã do computador. Mas estamos tão divididos quanto Lacan parece estar entre as dinâmicas do espelho e do ecrã, dinâmicas essas que parecem ser bastante diferentes. Há uma espécie de confusão sobre se se pode ou não ocupar o lugar por detrás do ecrã. Não é um espaço impossível no mesmo sentido, em parte porque não há necessidade de que a imagem virtual tenha qualquer relação com o sujeito particularmente "verdadeira" ou mesmo "real".

A persona que aparece no ciberespaço é potencialmente muito mais uma projecção do que uma reflexão - potencialmente não mais que uma complexa espécie de identificação, e muitas vezes de uma maneira bastante consciente. Mas a consciência a este nível não nos permite fazer de analista e de analisando simultaneamente, como se a extensão no virtual através da tecnologia do computador fosse uma duplicação dissociativa.

Claramente, neste momento, qualquer envolvimento mais profundo com a comunidade virtual irá envolver-nos num campo complexo de significados e associações - um envolvimento onde a possibilidade de escolha entre o real e o tão-bom-como-o-real, entre a experiência real e a virtual, poderá finalmente constituir uma de entre tantas mais questões. Devemos estar atentos aos efeitos da velocidade, a fim de não ficarmos dessincronizados dos ritmos da vida real.