VIRTUAL


No nosso discurso quotidiano, "virtual" refere-se mais frequentemente ao que parece ser (mas não é) real ou autêntico - ainda que tenha os mesmo efeitos. Mesmo nesta forma coloquial se atesta a possibilidade de parecer e ser se confundirem, e de que, ao fim e ao cabo, a confusão acabe por não ter importância. Mas este sentido de virtual como "tal como aparece" chega até nós a partir de uma complexa história de relações entre a realidade, a aparência e o bem. Não existe uma definição única para virtual, tal como afirma Michael Heim, porém as raízes da virtualidade parecem estar na "virtude", e portanto tanto no poder como na moral. Na forma arcaica, virtual e virtuoso eram sinónimos. Um outro sentido de virtual refere-se à óptica, em que a imagem virtual é aquela que aparece no espelho. Mas pode ser que por fim todos estas pontas etimológicas acabem por se atar num mesmo nó.

As mais profundas raízes de virtualidade parecem estender-se a uma visão religiosa do mundo onde o poder e a bondade moral estão unidas na virtude. E a característica do virtual é a de que é capaz de produzir efeitos, ou de se produzir a si próprio como um efeito, ainda que na ausência do "efeito real". O ar de miraculoso que o une à virtude ajuda a obscurecer a distinção entre efeitos reais do poder e/ou bondade, e efeitos que são tão bons quanto os reais. Ambas as utilizações do termo parecem ter sido concorrentes. Talvez este seja um efeito quase necessário no altamente metafórico universo cristão, no qual se pode conjurar o (virtual) corpo de Cristo "onde dois ou três se juntam em nome de (Jesus)", ou no corpo que foi investido com total autoridade face a toda uma religião num concelho elitista ou "igreja virtual".

Um entendimento mais secular da virtude começa por o atribuir a poderes mais físicos, a fim de que a virtude seja equacionada com saúde, força e pureza sexual.

Entre esta virtude física e a virtualidade das aparências pode, na realidade, haver uma espécie de descontinuidade. Esta pode ser colmatada por uma espécie de ponte a estabelecer entre os santos, "apanhados" entre um destino desconhecido mas predestinado, e as necessidades de uma cultura que pedia provas da salvação. Por aqui se pode ver como a boa (aparentemente moral) aparência pode ter tanto valor como o bom coração. A representação iconográfica dos santos nunca se referiu a nenhuns com mau aspecto...

A definição óptica de virtual acaba por partilhar alguns elementos com o miraculoso, mas refere-se especificamente ao domínio das aparências. As tecnologias ópticas iludem-nos em vias potencialmente úteis, ao trazerem o que não pode ser visto para o nosso alcance visual - por meio da reflexão, refracção, magnificação, visão remota ou simulação. Basta-nos ligar a televisão para nos apercebermos quão poderosas estas tecnologias podem ser. Não admira que a promessa da imersão na realidade virtual tenha causado tanta controvérsia. Paul Virilio sugeriu que as tecnologias virtuais estão destinadas não somente a simular o real, como Jean Baudrillard tinha afirmado, mas sim a substituí-lo.