A VIRTUALIDADE DISCURSIVA


Para todos os que estão familiarizados com a tecnologia informática, particularmente aplicações de software que permitam ao utilizador aceder a ela através de interfaces virtuais muito elaborados (por exemplo, software de comando vocal), a relação entre virtualidade e realidade real torna-se evidente. Quem quer que tenha trabalhado na criação de um texto num ambiente de trabalho virtual e que seja apanhado por um mau funcionamento do computador, eliminando a possibilidade do texto entrar na realidade, compreende o potencial que os sistemas virtuais têm para afectar a realidade real. Mas esta relação entre a realidade real e a virtual, para Foucault, não se atem aos terminais de computador. Os seus argumentos sobre a natureza do discurso sugerem que a linguagem existe enquanto elo virtual entre os seres humanos e o mundo. Terminais virtuais, similares aos que se encontram no software, são formados pelo discurso.

Um exemplo primário da virtualidade discursiva é a construção do local virtual conhecido como o "autor" pela cultura ocidental. No seu artigo "O que é um autor?", Foucault contribui para o argumento pós-estruturalista contra a ideia de um sujeito autorial individual que manipula o discurso para criar conhecimento, examinando tipos de textos dentro da sociedade que são "autorais" e outros que são meramente escritos, proferidos, etc. Textos autorais são locais estabelecidos de informação, e os autores são os produtores dessa informação. Para Foucault, a ideia de um autor é um conceito virtual, discursivo, constituído por linhas mestras sociais para o "modo de existência, circulação e funcionamento de certos discursos". Apelida este autor virtual de "a função do autor". Dentro do espaço virtual da função do autor, um dado escritor pode apropriar o discurso e os standars de acesso social a fim de estabelecer credibilidade e uma identidade autorial. Não é muito difícil imaginar a função do autor como um tipo de software social, ou uma tecnologia virtual desenhada para atingir um objectivo discursivo específico. Enquanto que o processador de comando vocal é um software desenhado para dar aos utilizadores um ambiente virtual, no qual se vão produzir textos que tenham uma significância social de texto impresso na realidade, a função do autor é designada para permitir que a linguagem seja manipulada num ambiente virtual, a fim de trazer autoridade a essa mesma linguagem.

As implicações da virtualidade discursiva são vastas de alcance, pedindo a revisão do conceito de uma realidade real unitária como o modo primário da existência para os humanos. Se assumirmos como aplicáveis as ideias de Foucault sobre o discurso, i.e., se assumirmos que a sociedade consiste num leque completo de funções virtuais construídas a partir do discurso, começamos então a aceitar a possibilidade de a realidade ser definida como uma sucessão infindável de patamares de virtualidade. A realidade não pode continuar a ser vista como existência num único nível referencial, mas antes como um conjunto infinito de tais níveis, nos quais podemos existir e negociar ao mesmo tempo que eles se sobrepõem e intersectam uns aos outros.