QUESTÕES DE LITERACIA DIGITAL: OBSERVAÇÃO DE NOVOS MODOS DE LER E ESCREVER ONLINE NA PRÁTICA DO ENSINO SECUNDÁRIO

RESUMO

Já foi óbvio que o fim último de um texto era ser ouvido, a partir de um rolo, ou ser lido, numa página impressa. Futuramente, deverá ser navegado. O mecanismo de progressão, dantes uma linha, parece agora organizar-se em torno de hiperligações e caixas de pesquisa. O presente estudo investiga a nova literacia correspondente a esta evolução. O assunto ultrapassa largamente o simples funcionamento de dispositivos de navegação. Como os anteriores, o texto digital define espaços de leitura, modos de ler e modelos de leitor. Em leitores mais assíduos, particularmente nos jovens e adolescentes, favorece, se não pressupõe, fórmulas identitárias, relações, códigos, rituais de leitura e discursos específicos sobre tecnologia e comunidade. Há uma genética que se digitaliza, quando estes leitores ocupam a Internet. Em que sítios navegam os jovens, nossos alunos? Qual é o modelo de Internet que têm? Como a lêem e representam? Que discursos elaboram sobre ela? Que tipos de uso efectivo realizam? Neste estudo, depois de um enquadramento geral do conceito de literacia digital, recapitulamos o movimento histórico que o trouxe até hoje, através de sucessivas re-espacializações da narrativa; analisamos os sentidos em que é usado actualmente e reflectimos sobre a sua articulação com as dimensões tecnológica, social e psicológica do Homem. A observação de um pequeno grupo de alunos do ensino profissional secundário, descrita na segunda parte, possibilitou-nos reinterpretar aquelas questões. Beneficiando de uma relação pedagógica já formada, propusemos a esses alunos um projecto curricular, dirigido para a análise dos seus vínculos, desígnios e inquietações digitais, no âmbito do qual inserimos a nossa observação participante. Aplicámos uma metodologia de natureza etnográfica, indissociável do contexto deste grupo e temporalmente limitada, aberta e com um mínimo de prescrições. Os resultados, insusceptíveis de uma generalização imediata, permitiram-nos caracterizar hábitos e discursos, nomeadamente aquele fazer digital que estes alunos interrogam, e o sentido em que eles se identificam com a posse de uma nova competência de ler. Sugerimos, no fim, algumas linhas de acção pedagógica e de investigação sobre o assunto, acaso pertinentes, se ainda reconhecermos linhas no campo metafórico do conhecimento.

PALAVRAS-CHAVE: Literacia, leitura, espaço digital, texto digital, tecnologia, leitor.