Áreas Profissionais
Ambiente
Arquitectura e Design
Ciências Agrárias
Ciências Biológicas
Ciências Empresariais
Ciências Sociais e Humanas
Comunicação
Informática e Electrónica
Turismo
Pistas para Consultar o Guia
Índice de Profissões
Sugestões/Comentários
Procura de Emprego
Tendências do Mercado de Trabalho


Tendências do Mercado de Trabalho

O exercício de uma actividade profissional constitui, para muitos de nós, uma parte fundamental da nossa vida, à qual dedicamos grande parte do nosso tempo. Além de poder garantir segurança material, trabalhar contribui para a nossa satisfação/realização pessoal enquanto indivíduos e membros de uma sociedade. Com esse intuito, muitas pessoas dedicam-se ao aprofundamento e à valorização dos seus conhecimentos, apostando nos seus estudos; outras, pelas mais diversas circunstâncias, optam por entrar na vida activa o mais cedo possível. A obtenção de um emprego ou o exercício de uma profissão não resulta, contudo, apenas da nossa vontade: é necessário que o mercado de trabalho nos ofereça essa possibilidade, o que depende de diversos factores (demográficos, económicos, educacionais, sócio-profissionais, etc.). Deste modo, pretende-se aqui enunciar as tendências globais da realidade portuguesa - e, sempre que possível, do espaço comunitário - que influenciam e condicionam o mercado de trabalho nacional, na medida em que o seu conhecimento pode ajudar os jovens portugueses de hoje a fazerem opções mais convenientes ao seu futuro profissional, de acordo com a situação e as perspectivas do mercado de trabalho nacional.

 

Tendências Demográficas

A composição demográfica de um país tem reflexos importantes quer na sua capacidade produtiva, quer na procura ou consumo de bens e serviços e, por conseguinte, no bem-estar e na qualidade de vida dos cidadãos. Um país cuja população está a envelhecer ou cujo número de pessoas economicamente activas está a diminuir é um país em que a riqueza nacional se torna insuficiente, conduzindo a uma maior dependência relativamente à produção externa e dificultando a criação de infra-estruturas necessárias ao desenvolvimento das regiões. Em comparação, uma população maioritariamente jovem desloca o consumo de bens e serviços para sectores economicamente importantes (por exemplo, o sector da construção civil em virtude da procura de habitação), dinamiza as estruturas de ensino e de formação e estimula a criação de novas fórmulas de desenvolvimento sócio-económico.

 

A. População Total

A população residente em Portugal - que contava, em 31 de Dezembro de 1995, com cerca de 9,9 milhões de pessoas - tem registado uma evolução anual positiva, mas a um ritmo de crescimento bastante lento. De acordo com o Serviço de Estatística das Comunidades Europeias (EUROSTAT), Portugal é dos países que tem apresentado uma das mais baixas taxas de crescimento efectivo da União Europeia (UE). Esta tendência é, no entanto, sentida em todo o espaço comunitário, sendo a sua taxa de crescimento também uma das mais baixas do mundo. Os indicadores demográficos existentes são, assim, no sentido do contínuo envelhecimento da nossa população (bem como da comunitária), ou seja, cada vez mais se regista o aumento do número de idosos e, simultaneamente, a redução do número de efectivos nos grupos etários mais jovens. Os factores que mais contribuem para esta situação são o aumento da esperança de vida e o declínio contínuo da fecundidade.

Observando a distribuição geográfica, a maioria das regiões do nosso país tem apresentado um crescimento efectivo positivo, havendo, contudo, evoluções regionais de sentido contrário. A situação mais preocupante é a da região do Alentejo, que tem registado um crescimento fortemente negativo, em virtude do envelhecimento acentuado da sua população e da saída contínua dos seus habitantes para outras regiões. A região Centro tem também vindo a evoluir negativamente, apresentando, em 1995, um crescimento de -1,3‰. Em comparação, a região do Algarve é a que tem apresentado maior crescimento demográfico, em resultado de um elevado saldo migratório.

Os movimentos migratórios recentes mais importantes da população portuguesa foram, nos anos 60, uma forte emigração - constituindo a França um dos destinos principais - e, nos anos 70, um fluxo imigratório não menos forte de retornados e refugiados das ex-colónias. Actualmente, e desde 1993, Portugal tem apresentado um saldo migratório positivo, contrariando a tendência que se registava desde inícios da década de 80. A população estrangeira legalizada residente no nosso país tem também aumentado, concentrando-se, sobretudo, nos distritos de Lisboa e Faro. A maioria dos estrangeiros residentes no nosso país são indivíduos pertencentes a comunidades africanas, principalmente cabo-verdianos. A segunda maior comunidade estrangeira residente em Portugal era, em 1995, a brasileira.

B. População Activa

A população activa é constituída pelo conjunto de pessoas que, tendo ultrapassado a idade de escolaridade obrigatória, estão disponíveis para a produção de bens e serviços, quer se encontrem a trabalhar, quer estejam desempregados. A taxa de actividade total em Portugal era, em 1996, de 48,9%, ou seja, cerca de 4,6 milhões de pessoas do total da nossa população eram economicamente activas. A evolução desta taxa tem-se mantido, nos últimos anos, relativamente estável, dado que, apesar de se registar algum declínio da taxa de actividade dos homens, tem aumentado a taxa de actividade das mulheres.

A evolução positiva da taxa feminina tem-se registado na totalidade da UE e constitui um indicador da crescente participação das mulheres no mercado de trabalho. O comportamento desta taxa pode ser explicado por diversas razões: necessidades económicas, vulgarização do trabalho a tempo parcial, redução do número de filhos ou a própria evolução de mentalidades. Por outro lado, é de registar que esta tendência não se limita ao crescimento da participação das mulheres nas actividades económicas onde tal era tradicionalmente comum, mas que se desenvolve, sobretudo, pela participação feminina nas mais diversas áreas económicas.

O decréscimo da taxa de actividade masculina, por seu lado, explica-se parcialmente por uma outra tendência registada tanto em Portugal como no resto da UE: a diminuição da população jovem activa com menos de 25 anos. Este fenómeno deve-se a três factores principais: um, demográfico, decorrente da diminuição da população jovem; outro, sociocultural, resultante do alargamento do período de tempo dedicado à formação escolar e/ou profissional; e um terceiro factor, derivado das dificuldades de inserção no mercado de trabalho (que levam os jovens a permanecer mais tempo no sistema de ensino e de formação). Apesar desta tendência, o nosso país continua a apresentar uma das mais elevadas taxas de actividade jovem da UE, ainda que se preveja o seu decréscimo nos próximos anos, de acordo com projecções realizadas, em 1994, pelo EUROSTAT.

 

Tendências Económicas

Numa época em que as economias nacionais funcionam cada vez mais segundo uma lógica mundial, é fundamental que um país apresente uma economia sólida e estável, de modo a transmitir uma imagem de confiança e segurança aos seus parceiros económicos. Uma nação com um crescimento económico sustentado é, por norma, uma nação que ganha força no plano internacional, que atrai investimento e que cria emprego. Este crescimento costuma também ser sinónimo de estabilidade social e política e de qualidade de vida dos cidadãos. Deste modo, um dos principais objectivos das sociedades actuais consiste em criar e desenvolver, o mais possível, vantagens económicas competitivas, através da adaptação do tecido empresarial e do aparelho produtivo às necessidades decorrentes da globalização da economia, bem como através da qualificação dos recursos humanos, factor imprescindível ao desenvolvimento económico.

 

A. Actividade Económica

Nos últimos anos, o comportamento da economia portuguesa tem sido condicionado pela aproximação e articulação com a UE, com vista à criação do Mercado Único Europeu, tendo como referência a necessidade de concorrer com os grandes mercados económicos mundiais (designadamente o dos Estados Unidos da América e o do Japão). Estes objectivos têm imposto a Portugal a criação gradual de um quadro económico distinto daquele que o caracterizava nas décadas de 60 e 70 (com debilidades estruturais graves), através de um esforço de convergência com as economias dos outros países da UE, beneficiando, para esse efeito, da ajuda dos fundos estruturais comunitários.

No período mais recente, a evolução da economia portuguesa tem sido marcada pelos progressos no cumprimento dos critérios de convergência e pela continuação do processo de recuperação económica decorrente da recessão de 1993 (enquadrada num comportamento geral da economia comunitária e mundial). Em 1996, a actividade económica nacional continuou a apresentar sinais de recuperação, tendo registado o Produto Interno Bruto (PIB) um crescimento de 3%. À semelhança do padrão de recuperação da generalidade das economias da UE, o aumento do investimento e das exportações foram os factores que mais contribuíram para o crescimento da economia portuguesa. A trajectória descendente do Índice de Preços no Consumidor (IPC), que se tem vindo a verificar em Portugal desde 1990, manteve-se também em 1996, situando-se a taxa de inflação anual nos 3,1%.

Neste quadro caracterizado pelo processo de consolidação do Mercado Único, o cenário macro-económico previsto para o nosso país caracteriza-se, sobretudo, pela necessidade de aumentar a competitividade do nosso tecido empresarial. Este processo é, contudo, dificultado pelo facto das nossas empresas serem maioritariamente de pequena e média dimensão: em 1994, cerca de 80% das empresas portuguesas tinham menos de 10 pessoas ao serviço. Analisando este universo por grandes sectores de actividade e segundo a sua distribuição geográfica, o distrito de Lisboa apresentava-se claramente como a região com maior número de empresas do sector terciário (de prestação de serviços, bancos, seguradoras, transportadoras, comerciais, etc.). O distrito do Porto apresentava-se como o principal pólo aglutinador de empresas do sector industrial.

 

B. Emprego

Embora tenha havido uma recuperação do volume total do emprego em 1996, a evolução da população portuguesa empregada, nos últimos anos, tem sido negativa, apresentando o emprego masculino o comportamento mais desfavorável. Tendo em conta a distribuição etária, é no grupo dos jovens dos 15 aos 24 anos que se têm observado maiores quebras sucessivas no emprego, por razões já apontadas. A taxa de emprego portuguesa mantém-se, contudo, acima da taxa de emprego comunitária, dado que UE tem também vindo a sofrer, desde 1991, uma contracção do seu volume de emprego. Segundo o EUROSTAT, entre 1992 e 1993, por exemplo, registou-se a perda de cerca de 2,4 milhões de postos de trabalho no espaço comunitário. Os dados estatísticos relativos a 1995 e 1996 parecem indicar, porém, que a evolução do emprego em Portugal e na UE está a melhorar, pelo que se pode estar a assistir a uma inversão desta tendência.

Em termos sectoriais, os últimos anos têm sido marcados pelo aumento da população portuguesa empregada no sector dos serviços, principalmente em detrimento do sector da indústria, onde desapareceram, entre 1992 e 1996, mais de 100 mil postos de trabalho. Porém, quando se compara a nossa estrutura de emprego com a da UE - e apesar da terciarização da nossa economia - verifica-se que o peso relativo do emprego no sector agrícola em Portugal continua a ser superior ao registado na maioria dos países comunitários: em 1995, Portugal apresentava, ainda, uma taxa de emprego agrícola na ordem dos 11,5%, enquanto a taxa comunitária rondava os 5,3%.

Outro aspecto relevante é o facto da quebra do volume de trabalhadores por conta de outrem ter sido mais significativa do que a do emprego global, mostrando que o trabalho por conta própria tem vindo a ganhar maior peso nos últimos anos. A conjuntura económica negativa recentemente sentida levou também a que se assistisse ao aumento do trabalho a tempo parcial e do recurso à reforma antecipada, bem como à redução significativa dos contratados a termo.

 

C. Desemprego

O período de recessão que a economia portuguesa atravessou teve igualmente efeitos visíveis no volume do desemprego. Entre 1992 e 1996, o volume da população desempregada aumentou 77,8%, havendo, neste último ano, cerca de 332 mil desempregados, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Neste conjunto, a população feminina é maioritária, ainda que o seu peso relativo tenha vindo a diminuir. Com efeito, o aumento do desemprego tem-se registado, sobretudo, entre os homens, tendo sido o acréscimo no número de desempregados, naquele período, de 84,9% para os homens e de 71,5% para as mulheres. Não obstante esta tendência, Portugal continua a apresentar uma taxa de desemprego significativamente inferior à registada na UE: em 1995, essa taxa era, para Portugal, de 7,3% e a taxa comunitária era de 10,7%.

Em termos etários, a população com menos de 25 anos é aquela que apresenta uma maior taxa de desemprego: 16,7%, em 1996. Contudo, o peso relativo dos jovens no conjunto da população desempregada tem vindo a diminuir (em virtude do decréscimo da população jovem activa), sendo o desemprego cada vez mais acentuado na população de 25 e mais anos. Neste grupo etário, tem sido também possível observar o aumento dos desempregados de longa duração - que procuram emprego há mais de um ano -, sobretudo entre os adultos de 45 e mais anos. A esta realidade não são alheios alguns constrangimentos do nosso mercado de trabalho, caracterizado por baixos níveis de escolaridade e de qualificação que afectam de forma mais evidente os mais velhos e aumentam a possibilidade de estes se verem confrontados com períodos mais prolongados de desemprego.

As regiões que apresentavam as maiores taxas de desemprego eram, em 1995 e por ordem decrescente, o Alentejo, a região de Lisboa e Vale do Tejo e os Açores. De salientar que a região de Lisboa e Vale do Tejo, embora venha a evidenciar um agravamento da sua taxa de desemprego entre pessoas de todos os graus de instrução, apresenta valores especialmente elevados entre os indivíduos com um nível de instrução mais elevado (ensino médio e superior), situação também registada no Algarve. Em comparação, a Madeira e a região Centro eram as que, no mesmo ano, apresentavam as taxas de desemprego mais baixas de todo o território nacional.

 

Tendências Educacionais

O nível educacional de um país constitui um indicador do seu estado civilizacional e reflecte-se na produtividade da sua população empregada, designadamente no que se refere às capacidades de investigação e produção de conhecimentos científicos, de adaptação às novas tecnologias, de assimilação de novas formas de trabalho, etc. O nível de habilitações literárias dos indivíduos tem, assim, uma importância nacional e individual, na medida em que tanto contribui para a competitividade do país como para a capacidade de cada um para entrar no mercado de trabalho e aí permanecer. Possuir um nível educacional elevado não significa, contudo, a garantia de um emprego aceitável, bem remunerado e estável, nem evita situações de desemprego. Porém, aumenta significativamente as hipóteses de trabalho e é essencial para se poder competir com outros profissionais.

 

A. População Estudantil

Como foi anteriormente referido, tem-se observado o aumento do período de tempo que a população jovem portuguesa dedica aos estudos e/ou à formação profissional: a título de exemplo, enquanto, em 1990, apenas 48,6% dos jovens dos 15 aos 19 anos se encontrava a estudar/em formação, em 1995, essa percentagem subira para os 73,4%. O aumento registado entre os jovens dos 20 aos 24 anos foi igualmente marcante (18,3%, entre 1990 e 1995). Apesar destes valores estarem, ainda, aquém dos valores médios comunitários, a evolução dos últimos anos deixa antever a sua aproximação, com o aumento do nível de habilitações literárias da nossa população.

Esta tendência tem sido particularmente sentida no ensino superior, onde o número de alunos matriculados tem aumentado de forma acentuada nos últimos anos, quer no ensino público, quer no particular e cooperativo: segundo dados do Ministério da Educação (ME) e do INE, entre 1985/86 e 1994/95, a população estudantil do ensino superior registou um aumento na ordem dos 219%, existindo, nesse último ano lectivo, cerca de 1.530 bacharelatos e licenciaturas e 298 mil alunos matriculados. Em 1993/94, as áreas em que existia maior número de alunos matriculados eram, por ordem decrescente, Gestão de Empresas, Ciências da Engenharia, Ciências da Educação e Formação de Professores, Ciências Sociais e de Comportamento, Direito e Letras. As áreas com menor número de matriculados nesse mesmo ano lectivo eram, por ordem crescente, Nutricionismo, Religião e Teologia e Belas Artes e Artes Aplicadas.

Nos níveis de escolaridade mais baixos, a situação tem sido, contudo, inversa: em virtude da diminuição contínua da população jovem, tem sido possível observar uma redução do número de alunos inscritos no 1º e 2º ciclos do ensino básico: por exemplo, entre 1991/92 e 1993/94, estes níveis de escolaridade sofreram a perda de 83.465 alunos.

 

B. Habilitações Literárias da Mão-de-Obra

Os últimos anos têm sido caracterizados pela elevação progressiva do grau de instrução da nossa população activa. Apesar de lenta, esta tendência é evidente quando se observa o nível de habilitações literárias da população portuguesa empregada. Entre os trabalhadores por conta de outrem, por exemplo, tem-se registado o aumento da proporção daqueles que possuem o ensino secundário completo ou um grau de instrução equivalente, bem como os que possuem um curso superior, designadamente um bacharelato ou uma licenciatura. Em consonância com esta tendência, tem também aumentado ligeiramente o número de trabalhadores por conta de outrem com níveis superiores de qualificação: o número de quadros médios e superiores nas empresas tem registado um acréscimo, assistindo-se, igualmente, a uma pequena redução dos profissionais não-qualificados e semi-qualificados.

No entanto, e apesar dos avanços registados na área da educação e da formação profissional, a população portuguesa empregada continua a apresentar um nível baixo de habilitações, tendo a mão-de-obra pouco qualificada um peso ainda significativo. Esta situação é preocupante, dado que reduz a competitividade dos nossos recursos humanos, tendo em conta o mercado de trabalho comunitário. A título de exemplo, em 1995, a percentagem das mulheres portuguesas empregadas, com idades compreendidas entre os 25 e os 39 anos e com formação universitária, era cerca de metade da registada na UE.

 

Tendências do Mercado de Trabalho

O mercado de trabalho existente num determinado país compõe-se pelo conjunto de indivíduos economicamente activos, empregados ou não, cujo valor profissional está sujeito à lei da oferta e da procura, com base nas suas qualificações (experiência profissional, habilitações literárias, conhecimentos técnicos, características pessoais, etc.). No entanto, existem outros factores que, não dependendo directamente do indivíduo, afectam o seu valor profissional e as suas possibilidades perante o mercado de trabalho, tais como as novas formas de trabalho, as necessidades das empresas em matéria de recursos humanos ou o excesso de mão-de-obra qualificada em algumas áreas profissionais ou de formação.

 

A. Mundo Empresarial e Práticas de Trabalho

Por razões de sobrevivência económica, as organizações sofrem regularmente processos de adaptação e desenvolvimento, dos quais resultam novos modelos de gestão e novas tendências empresariais. Uma das tendências evidente nos últimos anos tem sido o downsizing, que consiste num processo de redução ou "achatamento" das estruturas hierárquicas das organizações. Os principais objectivos do downsizing são, por um lado, reduzir a burocracia e os custos das empresas e, por outro, aproximar os gestores da realidade concreta das actividades das organizações que dirigem. Sendo a redução de recursos humanos uma das primeiras consequências desta prática, assistiu-se, em muitas das grandes empresas espalhadas pelo mundo, ao desaparecimento de chefias intermédias e de profissionais cujas funções não estavam integradas nas principais actividades das organizações.

Em estreita ligação com o downsizing, algumas empresas têm levado a cabo uma política de outsourcing, a qual consiste no recurso a empresas externas que prestam serviços especializados numa determinada área. Prática de certa forma já generalizada no nosso país, o outsourcing permite que os recursos humanos existentes nas organizações se dediquem apenas às actividades principais das mesmas, deixando as secundárias (por exemplo, a administração de salários ou a realização de estudos de mercado) a cargo de outras empresas. Além disso, reduz os custos directos e liberta o tempo dos gestores para que estes se possam dedicar apenas aos negócios estratégicos das organizações. Em consequência, tem-se assistido, em Portugal, ao aparecimento de empresas de consultadoria que se dedicam à prestação de serviços especializados em áreas não estratégicas de outras empresas, nomeadamente na área financeira, de gestão de recursos humanos e de marketing.

Uma filosofia empresarial que também tem trazido algumas modificações ao mundo das (grandes) empresas é a reengenharia, segundo a qual os gestores devem proceder a uma radical redefinição e redesenho das organizações que dirigem, tanto no que se refere à sua estrutura como ao seu funcionamento, com o objectivo de obter melhorias drásticas em áreas consideradas fundamentais: custos, tempo (rapidez) e qualidade de serviços e/ou produtos. Os pressupostos genéricos da reengenharia, à semelhança do downsizing e do outsourcing, são os factores considerados fundamentais numa organização, num mercado económico cada vez mais agressivo e competitivo: flexibilidade e rapidez de acção.

Quer devido aos factores privilegiados pelos novos modelos de gestão, quer em resultado de fenómenos como o aumento do desemprego ou a ocorrência de períodos conjunturais economicamente difíceis, tem-se também assistido à emergência de novas formas de trabalho. As novas tecnologias de informação, por exemplo, permitiram o aparecimento do teletrabalho, regime laboral em que, por acordo mútuo entre o trabalhador e a entidade empregadora, as tarefas do trabalhador são exercidas fora do local de trabalho (em casa ou noutro local considerado conveniente ou necessário). Um teletrabalhador é, por exemplo, um jornalista que redige os seus textos em casa e que, recorrendo a uma linha telefónica, computador, modem, fax ou correio electrónico, os envia para a redacção do jornal, não necessitando de aí se dirigir. Além de poupar aos trabalhadores as deslocações diárias entre a sua residência e o local de trabalho, bem como lhes disponibilizar tempo para tratarem dos seus assuntos e estarem com a família, o teletrabalho contribui para a flexibilidade e redução dos custos das empresas, uma vez que estas deixam de ter despesas inerentes, por exemplo, à criação e manutenção de condições materiais para os seus trabalhadores (instalações, luz, telefones, água, etc.). Apesar de ainda não registar uma aceitação muito grande no nosso país, o teletrabalho representa já uma importante fatia do trabalho existente nos Estados Unidos da América e em alguns países europeus.

A alteração das exigências das entidades empregadoras para com os seus empregados tem sido também evidente. Actualmente, cada vez mais organizações são apologistas de uma política de recursos humanos que promova o enriquecimento das funções e das competências dos trabalhadores. Com este propósito, existem empresas de grande dimensão (bancos, por exemplo) que realizam o jobrotation, prática que consiste em colocar um trabalhador em diferentes postos de trabalho de diferentes áreas funcionais da organização, durante determinados períodos de tempo, para que este a conheça de uma forma global e desenvolva um perfil profissional polivalente. Além da polivalência, os requisitos-chave que cada vez mais organizações procuram nos seus trabalhadores são o dinamismo, a criatividade, a capacidade de adaptação a novas situações e a facilidade em aprender e desenvolver novas competências e novos conhecimentos.

Outra tendência do mundo laboral moderno é a generalização de formas atípicas de trabalho, designadamente o trabalho temporário. Este tipo de trabalho consiste na cedência temporária de trabalhadores para a utilização de terceiros e é levado a cabo por empresas na área de recursos humanos que cedem trabalhadores a outras empresas que deles têm necessidade. A grande vantagem desta modalidade é o facto das organizações ganharem flexibilidade e competitividade ao tornarem os seus custos fixos em variáveis, pois só empregam este tipo de trabalhadores em alturas de maior necessidade, dispensando-os quando os seus serviços já não são precisos. Este tipo de trabalho tem, contudo, um senão: contribui para a instabilidade profissional do trabalhador, dado o seu carácter transitório.

O aumento do trabalho a tempo parcial, a flexibilização dos sistemas de remuneração, a reorganização/redução dos horários e das cargas horárias e a generalização de situações de reforma antecipada constituem, também, novas realidades do mundo laboral. Tais realidades têm contribuído, igualmente, para a alteração dos valores e sentimentos tradicionalmente associados ao trabalho. O sentimento de segurança decorrente da convicção de que um emprego está garantido para o resto da vida, por exemplo, encontra-se hoje em declínio, em virtude da crescente instabilidade do mercado de trabalho. A quem entra no mercado de trabalho é, assim, exigido que tenha uma noção cada vez maior das dificuldades existentes e consiga planear a sua carreira profissional tendo em consideração as oportunidades de trabalho oferecidas pelo mercado na sua globalidade (e não apenas as eventualmente oferecidas pela organização em que se começa a trabalhar).

 

B. Áreas de Actividade e Qualificações

O mercado de trabalho funciona segundo uma lógica de oferta e procura, existindo áreas de actividade em que a concorrência entre profissionais é maior e outras em que a mão-de-obra qualificada disponível não é suficiente para fazer face às necessidades das organizações. Este funcionamento é, ainda, afectado pelas alterações - conjunturais e estruturais - que os diversos sectores económicos sofrem ao longo do tempo. Nos últimos anos, algumas áreas de actividade económica têm sido responsáveis pela criação de novas profissões, levando ao aparecimento de milhões de postos de trabalho por todo o mundo. Prova disso são as actividades relacionadas com a florescente indústria multimedia (tecnologias de informação, telecomunicações, produção de audiovisuais, etc.), a certificação e controlo de qualidade ou a defesa do meio ambiente.

Tomando o ambiente como exemplo, surgiram actividades ligadas ao tratamento e reciclagem de resíduos domésticos, gestão de resíduos industriais, protecção e manutenção de zonas naturais, gestão dos recursos de água, etc. O ambiente foi, ainda, responsável pelo aparecimento de profissões como técnico de higiene e saúde ambiental, analista de riscos ambientais e engenheiro do ambiente, bem como pelo alargamento dos campos de actividade de profissões já existentes (por exemplo, no âmbito da advocacia, instrumentos legais para o ambiente, política e legislação ambiental, etc.). Tendo em conta que o sector do ambiente - tal como o da qualidade ou o da indústria multimedia - se encontra, ainda, em expansão, é de prever que a sua contribuição para o alargamento do mercado de trabalho continue a ser claramente positiva.

As actividades do sector do turismo e da hotelaria têm estado também relacionadas com a criação líquida de emprego e assumem particular importância no nosso país, uma vez que Portugal constitui um destino turístico importante para muitos dos nossos co-cidadãos comunitários. Embora muito vulneráveis às alterações da economia mundial, as actividades turísticas parecem continuar a oferecer boas perspectivas de emprego, na medida em que se assiste, hoje, ao desenvolvimento de novas formas de turismo, como o turismo desportivo (golfe, caça, desportos naúticos, etc), o turismo de habitação, o agro-turismo e o turismo rural. Estas novas formas estão também relacionadas com a importância económica cada vez mais reconhecida às actividades ligadas à recuperação do património histórico, rural e paisagístico, também elas consideradas potenciais criadoras de postos de trabalho.

Outras actividades que se espera que venham a ser responsáveis pela criação de novos postos de trabalho - além dos já criados - são as relacionadas com o lazer e a ocupação de tempos livres (em virtude da melhoria da qualidade de vida) e as de prestação de serviços pessoais e à comunidade (principalmente os dirigidos às crianças e aos idosos). As actividades relacionadas com a capacidade criativa (publicidade, design, concepção de produtos e serviços, etc.) parecem também ser importantes fontes de emprego.

Em contrapartida, é de esperar, no contexto da terciarização das economias, a regressão do emprego global no sector agrícola, mineiro e em alguns sectores industriais (na indústria naval, por exemplo). Nos últimos anos, tem-se vindo a observar que, por força do desenvolvimento tecnológico, muitas profissões ligadas a operações industriais têm vindo a desaparecer, surgindo, em seu lugar - mas em menor número -, outras mais qualificadas e cujas funções são de supervisão e controlo de operações executadas por máquinas. Crê-se, também, que continuem a desaparecer ou a alterar-se profundamente algumas profissões administrativas e de apoio ao funcionamento das organizações, em virtude da utilização crescente de ferramentas informáticas.

Em estreita ligação com o mercado de trabalho, funciona o sistema de ensino e de formação: à medida que o mercado vai necessitando de mão-de-obra com determinadas qualificações, vão surgindo ofertas formativas capazes de satisfazer tais necessidades. As áreas emergentes ou em expansão acima referidas disso são exemplo, pois têm dado azo ao aparecimento de diversas formações académicas, tais como Engenharia Ambiental e dos Recursos Naturais, Design Industrial ou Novas Tecnologias da Comunicação. Outra das tendências verificadas a este nível tem sido a especialização das ofertas formativas em virtude da especialização dos conhecimentos de determinadas áreas científicas e/ou profissionais. Esta situação verificou-se, por exemplo, na área da biologia, onde se observa a existência de cursos especializados que permitem formar biotecnólogos, biofísicos e bioquímicos, entre outros. Também em áreas como gestão de empresas, arquitectura e engenharia foi possível observar fenómenos idênticos, com o aparecimento de cursos autónomos que antes correspondiam a variantes curriculares dentro de uma formação mais genérica (por exemplo, Gestão Comercial e Marketing, Arquitectura da Gestão Urbanística e Engenharia Informática).

A especialização das formações académicas do ensino superior tem sido, porém, considerada excessiva por algumas associações profissionais, de acordo com as quais as formações especializadas restringem o leque de saídas profissionais. Uma situação que também é considerada preocupante - e, segundo as mesmas, reflexo de alguma desadequação do sistema de ensino às necessidades do mercado de trabalho - é o excesso de diplomados em algumas áreas de formação, responsável pelo aumento das dificuldades de inserção no mercado de trabalho e, consequentemente, do desemprego qualificado.

Do ponto de vista das qualificações, a evolução não tem sido apenas no sentido da especialização de conhecimentos, mas também no do seu alargamento. O mercado de trabalho tem vindo a necessitar, por exemplo, de engenheiros - das mais diversas especialidades - com conhecimentos de gestão e estratégia comercial, para ocupar cargos de direcção em empresas industriais ou exercer funções relacionadas com a venda de materiais ou tecnologias da sua especialidade. Os conhecimentos comerciais têm vindo a ser igualmente exigidos a profissionais da área da saúde (médicos, farmacêuticos, técnicos de saúde, etc.), nomeadamente por empresas ligadas à indústria farmacêutica. Conhecimentos em informática na óptica do utilizador e o domínio de línguas estrangeiras constituem, também, requisitos muito procurados hoje em dia pela generalidade das entidades empregadoras quando contratam profissionais de qualificação superior.

topo