CD-i (Compact disc interactive)
A Philips lançou em 1969 um projecto de investigação com o objectivo de concretizar o registo digital de dados, sons e imagens sobre discos ópticos lidos por um feixe de raio laser, o sistema operativo foi criado pela Microware e adoptou a designação CDRTOS. Este projecto foi potenciado pela aliança estratégica firmada 18 anos mais tarde com a Sony e de que resultou a consignação das especificações do sistema numa obra de referência técnica que ficou conhecida sob a designação Green Book, coloração compreensível dada a anterior designação de Red Book para o CD-Audio e CD-ROM.
Entre 1987 e 1991 decorre um período de afinação final do sistema operativo, da unidade de leitura, fase que decorreu paralela à produção de discos pioneiros. O sistema foi lançado em 1991 nos E.U.A. e em 1992 na Europa. A partir de 1993 a máquina foi complementada com a introdução opcional de placa que permite o acesso ao vídeo digital em todo o écran (Full Motion Video), designação que recentemente evoluiu para Digital Video.
Embora possuam genealogia próxima e parentesco de primeiro grau, CD-i e CD-ROM são, por ora, incompatíveis e ilegíveis fora das unidades de leitura específicas. Já o mesmo não acontece com o CD-Video e CD-Foto que são lidos pelo CD-i. Desde finais de 1994 já é possível ler discos CD-i num leitor CD-ROM. Para tal, o utilizador de computadores terá de adquirir uma placa específica para instalar como periférico da máquina, bem como uma unidade de leitura CD-ROM de velocidade quádrupla, a fim de poder usufruir do disco interactivo no computador. Continua, porém vedado o acesso à cópia e transferência de informação para o disco rígido, a fim de evitar problemas relacionados com os direitos de Autor. Para lá das diferenças de ordem técnica e de sistema operativo, o CD-ROM caracteriza-se por ser um sistema periférico do computador pessoal, uma ferramenta de trabalho que potencia o acesso a grandes massas de informação, cuja consulta e acesso é possível a partir do computador.
Mais democrático no preço e mais simples na configuração, muito embora seja mais complexo no que concerne a construção de aplicações, nomeadamente a nível da interface, o CD-i foi inicialmente concebido como periférico do televisor, destinado a ser integrado na sala de convívio familiar, acoplado ao sistema de alta fidelidade. Como atrás ficou indicado, o sistema possui formas intuitivas de utilização, possibilita uma navegação interactiva fácil, mas não permite (no momento em que estas linhas são redigidas) nem a manipulação da massa de informação, nem a sua utilização noutro contexto informático.
Tal facto, explica-se por razões relacionadas com a estratégia comercial: muito embora os leitores de CD-i estejam equipados com processadores Motorola que também equipam os computadores Apple, tal facto não é, geralmente, comunicado aos utilizadores, nem como argumento de marketing, nem como valor acrescentado ao sistema. Essa omissão compreende-se, em parte: ao promover o CD-i privilegia-se um público-alvo que desconhece os meandros da informática. A maioria dos utentes está sobretudo interessada em saber como usufruir das potencialidades da máquina e não quer desvendar o seu funcionamento interno. Esta atitude é sociologicamente compreensível dada a banalização dos componentes informáticos: hoje em dia, a maioria dos aparelhos domésticos já têm uma ou mais placas de sílica, algures no seu interior sem que o utilizador médio se preocupe em conhecer o seu modo de operação.
Para reforçar a tranquilidade do utilizador alérgico a parafernálias informáticas e suas consequências secundárias, o marketing que sustenta o CD-i reforçou este conceito ao criar um figurino familiar: a forma do aparelho é a de um banal leitor de CD-Audio, sem qualquer referência ao tipo de processador, capacidade das memórias existentes no interior da máquina. O CD-i dispõe de dois bancos de memória RAM com 530 Kb, cada. Dispõe também de uma memória NVRAM, (memória não volátil) que permite a gravação de 16 K de dados que permanecem activos para uma nova sessão de trabalho, mesmo depois de se desligar a máquina. A introdução da placa de vídeo digital acrescentou mais 1 megabyte à RAM original do aparelho.O telecomando que permite aceder às funções do aparelho decalca a maioria das suas funções do vulgar telecomando do televisor familiar, excepção feita à alavanca que permite deslocar o cursor no écran.
Baseados tanto na estratégia de concepção e de marketing do produto, como na observação do modo como o utilizador opera com o sistema, somos levados a afirmar que este tipo de aplicações multimédia são vistas como se fossem programas de televisão. Não são, evidentemente, programas normais da televisão de massas, uma vez que são selfmedia e interactivos. Mas no espírito do utilizador permanece o conceito de um programa que é visto através de um televisor familiar e o facto tem consequências que são merecedoras de reflexão: exige-se ao CD-i um «comportamento» semelhante ao dos programas de televisão, tanto ao nível da qualidade da imagem e do som, como do desempenho. Os critérios de exigência com que estes parâmetros são avaliados num computador equipado com CD-ROM são menos exigentes.
O CD-i não procura impor uma real mutação, ou ruptura com outros aparelhos existentes no universo familiar. Antes intenta integrar-se numa solução de continuidade. Contudo, não se deve minimizar o problema da curva de aprendizagem individual para utilizar com sucesso a navegação interactiva, facto que ainda é susceptível de condicionar a aceitação ou recusa do sistema. A quantificação desta curva de aprendizagem foi definida pela Philips para o comprador médio americano ou europeu. Um vendedor com formação específica no marketing multimédia demora entre 15 a 18 minutos a explicar a um comprador o que é o CD-i, como funciona e quais as vantagens da navegação em programas interactivos.
No mundo da electrónica de consumo poucos aparelhos exigem uma tão grande amplitude de explicações e esclarecimentos para motivar o acto da compra. Daí que a penetração no mercado seja lenta. Mesmo assim, e continuando a citar o estudo acima referido, o CD-i -quando comparado o CD-Audio atingiu num mesmo período de tempo o triplo da penetração no mercado que este conseguiu, quando este sistema foi comercializado há onze anos.
Sem sujeitar o utilizador aos ritos iniciáticos da informátca, o CD-i foi estudado para responder a um universo de consumidores que desejam fruir das potencialidades da multimédia próximas do que será a televisão interactiva do futuro. A filosofia de interacção baseada no princípio «aponte, clique e escolha» muniu o navegador apenas com um comando à distância. De facto, o telecomando é condição necessária e suficiente para operacionalizar o CD-i de molde a navegar nos mares da informação interactiva. Assim também sucedia com o CDTV, um produto originário da Commodore, que foi descontinuado.
Se foi difícil ser simples na conceptualização do modo de utilização destes sistemas, eles poderão, pelo menos em parte, ser acusados de simplistas, dado que possuem interfaces e sistemas interactivos sofisticados. Assim, por exemplo, não permitem manipular a informação, nem transferi-la para o disco rígido com o qual não foram equipados. Esta acusação ouve-se com frequência proveniente da área de especialistas informáticos que menosprezam «maquinetas» baseadas no princípio trilógico acima mencionado do «aponte, clique e escolha». Dado que não foram concebidas para a satisfação dos utilizadores mais exigentes quanto a uma intervenção directa no tratamento de dados, compreende-se a reserva que este pequeno mundo assume face ao «electrodoméstico» democrático sem pergaminhos de exigência de pesquisa, nem a nobreza dos sistemas abertos à investigação. Porém, no seu interior e sob uma aparência inócua, estas máquinas abrigam, todas elas, computadores sofisticados com uma arquitectura e sistema operativo originais e capazes de responderem a todas as solicitações para que foram concebidas. O que neste caso realmente mudou foi a filosofia de utilização na perspectiva do utente: não é este que tem de ascender à complexidade da máquina, é ela que disponibiliza as suas potencialidades de modo ergonómico a fim de facilitar a utilização. Condição sine qua non do sucesso de qualquer sistema multimédia, a ergonomia de procedimentos irá invariavelmente orientar-se no sentido da simplificação, sob pena de se assistir à recusa da operação com máquinas que imponham procedimentos muito complexos.
Mau-grado as condicionantes enunciadas, as vantagens das plataformas do disco óptico como suporte de aplicações multimédia off-line sobrelevam as desvantagens, pelo que para este projecto de trabalho prevaleceu a escolha do disco óptico (CD-i numa primeira fase e CD- ROM na segunda), como meio físico da construção, arquivo e difusão de programas multimédia. A referência a outros modelos serve para contextualizar o leque de opções de que por ora se dispõe. O DVD supõe-se que virá substituir tanto o CD-i como o CD-ROM
Discos compactos interactivos produzidos pelo C.I.T.I.
1993
- Lisboa, CD-I sobre a capital portuguesa integrado no catálogo internacional City Portraits,da Philips Media.
- Expo 98, título multilingue (português, coreano, francês e inglês), encomendado pelo Comissariado da Expo 98 para apresentação na Exposição de Tajong, Coreia.
- Renault, Hora de Verão, jogo encomendado pela Régie Renault, dentro da estratégia publicitária «Hora de Verão», com distribuição do disco por todos os concessionários daquela firma automóvel.
1994
- Karaoke de Música Popular Portuguesa título integrado no catálogo internacional da Philips Interactive Media Systems, «Karaoke Classics».
- IPPAR, disco de apresentação do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, da Secretaria de Estado da Cultura, realizado para a Feira do Livro de Lisboa.
- DSICT, disco de apresentação da Direcção de Serviços de Informação Científica e Técnica, do Ministério do Emprego e da Segurança Social, realizado para a Feira da Modernização Tecnológica da Administração Pública Portuguesa.
- O Triunfo do Barroco, no seio do programa IMPACT 2, da DGXIII da Comissão Europeia, título a integrar no catálogo internacional «Great Art Series», da Philips Media. Este disco ganhou o Prémio Especial do Júri Möbius Multimedia, Barcelona 1995.
1995
- Talvez...., Multimédia musical de Pedro Abrunhosa e os Bandemónio em CD-I, baseado no disco Viagens.
- Arte Rupestre no Vale do Côa, Projecto em CD-I e de apresentação do espólio de gravuras e pinturas no vale do rio Côa, edição do I.P.P.A.R.
- Karaoke do Fado Primeiro título de uma colecção de oito CD-i sobre karaoke de música popular portuguesa editado pela etiqueta CD-IN, distribuição Philips Media.
1996
- CD-i para o Parque Ecológico de Lisboa encomenda da Câmara Municipal de Lisboa para as novas instalações do Parque de Monsanto.
Excerto extraído da obra Multimedia on / off line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997