MODELOS DE COMUNICAÇÃO INTERACTIVA

O sincretismo de modelos que coexistem sincronicamente no tecido socio-cultural é o denominador comum das novas formas de comunicação utilizadas no final do século.

No passado, as escolas, os movimentos e os modelos por elas veiculados conheciam um período de afirmação combativo a que normalmente se sucedia uma fase de apogeu para entrarem num declínio que já anunciava a emergência de um novo movimento. Hoje, a reflexão sobre modelos de comunicação interactiva exige a cristalização momentânea de um processo que se caracteriza pela evolução rápida e desmultiplicada de conceitos e procedimentos tecnológicos. Os conceitos, bem como os processos deles decorrentes, reflectem a aceleração da mudança, por vezes da mutação imposta pela concorrência multinacional que sustenta e influencia a investigação na área das máquinas, dos programas que as operacionalizam, e das respectivas aplicações.

A comunidade que investiga e desenvolve produtos multimédia vocacionados para sectores específicos sabe que a regra é a desactualização regular de processos e a revisão periódica de conceitos. Mau-grado o terreno movediço em que a investigação se desenvolve, é possível reflectir sobre a pesquisa já realizada e sobre os processos tecnológicos actualmente em vigor com vista a caracterizar as linhas-mestras susceptíveis de definirem os contornos da evolução que se configura para o século XXI.

O modelo comunicacional consubstanciado pela aliança entre multimédia e telemática conforma o essencial da estrutura dos modelos de comunicação interactiva. Esta não anula nem inviabiliza os modelos anteriores. Adriano Duarte Rodrigues afirma a este respeito, ao concluir o capítulo sobre Formas de Sociabilidade e Modelos Comunicacionais «O modelo moderno de comunicação não sucede ao tradicional nem o modelo reticular de informação sucede ao moderno; coexistem num mesmo território e especializam-se no desempenho de funções próprias da experiência. Seria igualmente erróneo pensar que os três modelos são incompatíveis entre si. Não é pelo facto de estarmos conectados às redes mediáticas de transmissão de dados que deixamos de contar com os modelos tradicionais que presidem às relações intersubjectivas espontâneas, familiares e de vizinhança. As estratégias profissionais de comunicação moderna não anulam os modelos tradicionais nem inviabilizam a instauração das redes multimédia de comunicação.» in - Comunicação e Cultura. A Experiência Cultural na Era da Informação. Lisboa, Editorial Presença, 1994. p. 134.

A sucessividade cedeu o lugar à coexistência no tempo e no espaço de múltiplas escolas, trazendo propostas e modelos antagónicos, que convivem e cohabitam na aldeia electrónica em que o mundo se transformou. A desmultiplicação de núcleos difusores de cultura e as novas possibilidades de divulgação dos produtos desempenharam um papel decisivo para o sincretismo vigente.

A via que transporta os modelos comunicacionais é um suporte físico que conheceu uma evolução rápida e a sua estrutura determina não só uma parte significativa das suas características, mas também o seu modo de difusão e irradiação. Interactividade e interface, para citar apenas dois dos aspectos mais relevantes das novas estratégias comunicacionais são campos de pesquisa que ocupam vários centros de investigação, dispersos pelo mundo.

No caso específico do modelo comunicacional multimédia, para se poder analisar toda a extensão das consequências que catalisa, é necessário aliar os fundamentos da reflexão teórica aos alicerces da prática continuada com máquinas, sistemas operativos, programas e aplicações.

As fundamentações multimediáticas sobre modelos comunicacionais interactivos assentam numa aliança estreita entre os pressupostos teóricos e a sua experimentação. Tanto a formulação de princípios, como a reflexão saem claramente diminuídas se não estiverem sedimentadas num «saber de experiências feito» em que a teoria já não se situa a montante do processo, nem a prática a juzante, antes se considera que uma decorre da outra e ambas confluem num processo sistemático de interacções que se justificam e legitimam. Esta metodologia do trabalho científico que, a título de projecto de investigação pessoal implementei no C.I.T.I. justificam este conjunto de textos e as aplicações criadas a a montante e juzante da sua elaboração.

Excerto extraído da obra Multimedia on / off-line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997.