HIPERTEXTO

As palavras escritas integradas em aplicações multimédia ganharam valor acrescentado com os conceitos de hipertexto e de hipermédia. O termo hipertexto designa um trecho com conexões múltiplas interligadas. A ideia nasceu das experiências de Douglas Englebart da Universidade de Standford e vai buscar a designação aos trabalhos de Ted Nelson, na Universidade de Brown em 1965.

A teia constituinte do hipertexto pode ser comparada com uma estrutura molecular complexa. No hipertexto a expressão de uma ideia ou de uma reflexão pode incluir uma rede multidimensional de indicadores com precisões e argumentos complementares. É, por exemplo o caso da aplicação que está neste momento a ser consultada. Essas ligações dinâmicas podem ser definidas pelo autor. O leitor, na sua qualidade de «coautor», produtor de interpretações, é livre de acrescentar novos indicadores e argumentos diferentes daqueles que o Autor introduziu no original.

Durante muito tempo a Pedagogia e a Didáctica defenderam o conceito que postula que durante e após a leitura de uma obra escrita deve funcionar o princípio dos vasos comunicantes entre o trabalho do produtor/autor da obra e o seu produtor/leitor, na medida em que é das reflexões realizadas pelo leitor que este constrói os níveis de interpretação e de produção necessários à consecução de um trabalho/projecto. Um dos objectivos da didáctica consistiu e consiste na consecução difícil desta confluência em que o estudante é suposto adquirir capacidade de captar ideias, traduzi-las por palavras para que possa produzir textos na sequência de leituras assimiladas.

A mutação decorrente da passagem do texto ao hipertexto veio abrir dimensões insuspeitadas às metodologias do Ensino. Todavia é necessário desde já associarem-se os conceitos hipertexto e hipermédia uma vez que ambos decorrem um do outro, muito embora o segundo realize mais cabalmente os objectivos das aplicações multimédia.

O conceito hipermédia decorre da noção de hipertexto e, de algum modo, pode ser considerado como uma evolução do primeiro. As ligações que se estabelecem em hipermédia permitem que palavras, imagens e sons integradas em unidades de significação múltipla se associem de modo dinâmico a textos e a outros segmentos audiovisuais de molde a permitir um sistema de navegação fluente nos signos que compõem a gramática audio-scripto-visual.

Ao serem deslocadas do seu universo tradicional a morfologia e a sintaxe da palavra escrita não saem diminuídas na sua importância, antes potenciam outra classe de entidades e respectivas funções. As palavras que povoam a interface e as que constituem o hipertexto ou o hipermédia são unidades constituintes de uma estrutura morfológica e sintáctica com funcionalidades acrescentadas quando comparadas com aquelas que originalmente possuem. A relação estreita que estabelecem com a imagem e o som se, por um lado reduz a sua importância enquanto entidade dotada de autonomia própria, por outro potencia o signo multimediático. Tanto o significado como o significante das unidades mínimas de significação estão sujeitas à potenciação e a teia de relações múltiplas que as conexões dinâmicas admitem, alargam a esfera conceptual.

A iniciação à escrita informatizada leva a que muita gente utilize o processamento de texto exclusivamente como substituto da antiga máquina de escrever. E se da análise concreta das suas necessidades resultar somente o objectivo de transferência e de tratamento de documentos que pre-existiam grafados em suporte de papel e que agora é necessário conservar sob o formato ASCII será pouco provável que se ultrapasse o estádio de teclar, rever, cortar, copiar e arquivar. Todavia, se as necessidades de tratamento de texto impuserem objectivos adicionais, a sofisticação dos modernos programas responde a quase todas os objectivos do utilizador chegando ao pormenor de admitir uma paginação não-profissional, com inclusão de imagens e todo o tipo de formato de letras necessário à construção, por exemplo, de um jornal escolar.

No caso das aplicações multimédia o processamento de texto tem utilizações diversificadas que são função do(s) ponto(s) de inserção do mesmo: se a palavra escrita for integrada no sistema de interface como potência integradora do signo multimediático (que também, recorde-se, contém som e imagem) o seu significado, grafismo e posicionamento no écran obedecem a uma estratégia comunicacional decorrente dos objectivos dos autores da interface. Interessa uma vez mais sublinhar que a palavra escrita potencia a morfologia e a sintaxe globais do signo, seja qual for a especificidade dos objectivos a atingir.

No caso da palavra escrita integrar o corpo da aplicação como adjuvante de uma sequência audiovisual que o utilizador pode chamar com o objectivo de obter esclarecimentos adicionais que só o texto escrito pode fornecer, deve-se gerar um formato com a legibilidade possível no monitor ou no televisor. Os conceitos decorrentes da utilização da tipografia electrónica começaram por decalcar formas e formatos tipográficos tradicionais, mas rapidamente evoluíram para a introdução de princípios funcionais e estéticos distintos. Tal evolução radica numa evidência: a leitura de textos no écran não é tarefa fácil. Durante muitos anos o olhar treinou-se para a leitura sobre papel e a transferência para um suporte «pixelizado» realiza-se com esforço de que tanto a atenção como a concentração se ressentem. Daí a frequência com que ainda se procede à transferência de informação da aplicação multimédia para o disco rígido e deste para o papel. Creio que este movimento não é saudosista, nem significa qualquer «recherche d'un temps perdu». Ele caracteriza a necessidade de se poder trabalhar a informação escrita sobre um suporte que sem dúvida é mais amigável, ao menos para as pessoas que já não são teen-agers. Para a geração que terá 20 anos no ano 2000 a prática da leitura no écran é mais comum na medida em que desde muito cedo se habituaram a fazer leituras tabulares do conjunto de informações constantes nos monitores. A chamada geração dos jogos electrónicos «pixelizou» desde muito cedo a captação de informação escrita com que é bombardeada pelos fotões e neutrões que povoam o tubo catódico do cinescópio e, talvez por isso, sinta menos necessidade de recorrer ao suporte papel para colher e trabalhar dados.

Tanto a funcionalidade como a estética acima referidas são objectivos em vias de concretização e também neste campo se assiste à experimentação continuada no sentido de encontrar as melhores soluções de paginação do écran que facilitem a leitura tabular realizada sobre um suporte físico com efeitos de luminância, crominância e resolução que inicialmente não havia sido concebido para a leitura sistemática de textos escritos.

Para lá rede multidimensional de indicadores com precisões e argumentos complementares que o hipertexto disponibiliza, a utilização dos princípios do hipermédia permite grande economia de explicações complementares, por exemplo, na descrição detalhada de experiências multimédia já realizadas, uma vez que a ligação de conceitos a estruturas complexas como são os exemplos citados dos discos sobre Lisboa, O Triunfo do Barroco, iria permitir a sua consulta imediata e a confrontação com as reflexões e ideias expostas.

Excerto extraído da obra Multimedia on / off-line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997.