Internet - Estrutura organizativa

Os órgãos de cúpula que dirigem a rede- a Internet Society (I.S.) e a Internet Architecture Board (I.A.B.) - são assessoradas pelos dois organismos, o IEFT e o IESG. Estes três organismos coordenam o essencial da estrutura, do funcionamento e das novidades funcionais normalizadas.

As razões da aceitação da Internet são múltiplas. Para lá da ergonomia, da facilidade de acesso e da simplicidade no modo de receber e emitir comunicações, existe uma filosofia subjacente ao funcionamento da rede que é condição e garante do seu sucesso.

Dave Clark, o primeiro presidente da Internet Architecture Board sintetizou o espírito que presidiu à criação e ao funcionamento da rede num discurso que proferiu perante os membros do IETF ao afirmar que «rejeitamos os reis, os presidentes e mesmo os votos. Acreditamos nos consensos aproximados e nos códigos que funcionam» A recusa de qualquer tipo de centralização do poder e das suas variantes consubstanciadas na organização das democracias actuais, faz da Internet um caso particular de sucesso mundializado, que merece ponderação. A configuração física da rede, que será analisada mais adiante com algum detalhe, fundamenta-se no princípio da descentralização. Não existe um centro de operações geograficamente situado num dado ponto do planeta, ou fora dele, telecomandado por qualquer entidade. A força da rede reside na disseminação dos nós que potenciam o seu poder, na interconectividade de redes muito diversas, dispersas por múltiplos pontos, apenas unificados pelo protocolo de transferência de comunicação, conhecido pela sigla T.C.P. e pela linguagem específica da Internet, I.P. Qualquer fornecedor de informação, por mais poderosa que seja a multinacional que o apoie, directa ou indirectamente, ao ligar-se à rede não só disponibiliza a sua informação proprietária como é obrigado a interconectar-se com outros servidores próximos a fim de potenciar os acessos a mais fornecedores. Caso assim não proceda e se limite apenas a criar o chamado cul de sac vê a sua informação ser preterida por outras organizações menos sectárias que potenciam a interconectividade a servidores geograficamente próximos. Uma das maiores virtualidades da Internet reside no equilíbrio subtil entre competitividade e espírito de cooperação, uma vez que é objectivo fundamental do I.A.B. que uma não anule a outra e ambas cooperem sob a bandeira do TCP/IP, sobretudo quando a linguagem Html facilitou o acesso à Net.

«Connectivity is its own reward» A frase da autoria de Anthony Rutkowsky, director executivo da Internet Society, simboliza o crescimento exponencial desta rede de redes, cuja evolução em número de utilizadores aumentou de um milhão e trezentos mil subscritores em 1993 para dois milhões e duzentos mil em 1994. Em Janeiro de 1995, segundo números recolhidos na obra citada de Christian Huitema, cerca de cinco milhões de computadores estavam directamente ligados à Internet e estima-se que cerca de 20 a 30 milhões estejam indirectamente ligados através de passarelas, pontos de acesso e caixas de correio electrónico. Segundo o autor, a rede duplica a sua dimensão todos os anos, facto que é comprovável através de uma noção elementar de cálculo integral. A atracção pelos serviços prestados determina o volume dos iniciados, logo a derivada do tamanho da rede. «Se a derivada for proporcional ao tamanho então o crescimento é exponencial».

Retomando a citação de Dave Clark, a recusa em aceitar reis, presidentes, ou votos e a crença nos consensos aproximados e nos códigos que funcionam traduz a preocupação do conselho da Internet Society em praticar uma democracia directa assente sobre os princípios da competência, da discussão aberta a todos os internautas, sem outra exclusão que não seja aquela que se demonstra na capacidade e na competência científica para melhorar os códigos que são definidos como norma Internet, ou seja, para optimizar os parâmetros de funcionamento da rede de redes. A discussão aberta desses parâmetros é universalizada nos documentos conhecidos pela sigla RFC (request for comments) que circulam livremente e podem não só ser lidos, consultados, mas devem sobretudo ser comentados, modificados e/ou acrescentados no intuito de optimizar aspectos específicos à aplicação em discussão. O debate em torno de um dado tema é lançado por grupos, individualmente, ou por membros do IETF. Decorre publicamente através do correio electrónico e é sempre por consensos aproximados, pragmaticamente baseados nos acima mencionado «códigos que funcionam» que as decisões são adoptadas. As discussões na rede sobre vantagens e desvantagens de cada um dos modelos para uma dada aplicação são exaltantes (e por vezes exaltadas) mas prevalece o senso pragmático na adopção de uma dada norma.

Excerto extraído da obra Multimedia on / off-line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997.