Música Popular Portuguesa - Interactividade

O objectivo consignado a esta experiência consistiu em avaliar a eficácia deste modelo de interacção e o seu impacto como elemento adjuvante ou catalisador do desejo de participação (individual ou grupal) no fenómeno musical. Das experiências realizadas retiraram-se duas conclusões: o modelo interactivo karaoke, quando utilizado em grupo, funciona como catalisador das emoções musicais e conduz a uma participação plena, sobretudo quando os temas são conhecidos da maioria dos participantes. A segunda conclusão retirada assenta na observação do grau de participação individual: ela é função da inibição do sujeito aspirante a cantor. Se existem pessoas incapazes de ultrapassar a sua timidez, pegar no microfone e cantar a solo, outras há que gostam de se exibir. A atitude comportamental deste último grupo altera-se ao participar no jogo: o aspirante a cantor assume uma personalidade distinta ao empunhar o microfone.

A transferência pontual de personalidade mediante recurso a um campo comum de representação foi exemplarmente encenada em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, mediante as sucessivas entradas e saídas do écran tanto dos actores da situação que decorria na pantalha, como dos actores-espectadores que a ela assistiam.

No caso dos utilizadores de produtos multimédia que se transformam em interactores por via da aceitação do campo comum da representação e das funções dramáticas e dramatúrgicas a ele associadas, a questão do transfer pontual da personalidade não ocorre na mediatização do écran de cinema mas em directo e ao vivo, num espaço de comunhão presencial assumido com os espectadores e os outros interactores. Esta ocorre no espaço convivial e creio ser importante caracterizar as suas fases evolutivas: assim que a aplicação «karaoke» é lançada, e a música ocupa o espaço sonoro, os olhares fixam-se no écran. Se a faixa musical for conhecida, a atenção é redobrada porque, na maioria dos casos, as pessoas conhecem a letra de modo imperfeito e, de início, fazem uma leitura balbuciada como forma de ensaiarem o improviso iminente. A sincronia do aparecimento da letra no écran pode considerar-se uma função dramatúrgica que funciona como sendo o catalisador mais importante da transferência da personalidade.

Considera-se assim que o campo comum de representação é o espaço de convívio musical, a função dramática conducente à acção é o trecho musical que se conhece e sabe trautear, e finalmente, a função dramatúrgica que confere forma e substância à actuação do interactor consubstancia-se na letra da música que corre no écran. O todo poderá ser catalisado pelos incentivos à actuação por parte das pessoas presentes no grupo.

Quando o interactor decide actuar, a mímica, os gestos e a atitude corporal deixam de ser os habituais e a «perfomance» mostra uma personalidade outra, quiçá o artista secreto que há dentro de cada um deles. Foi curioso verificar que a mudança de atitude comportamental levou algumas das pessoas observadas, sempre que dominavam a letra da canção, a colocarem-se ao lado do aparelho ou de costas para ele, exibindo-se como se estivessem não na sala familiar, ao lado do televisor, mas dentro dele. O rito de passagem de fora para dentro do televisor é uma modalidade de transfer muito curiosa e inversa do exemplo citado em A Rosa Púrpura do Cairo: o princípio de verosimilhança e da empatia (regras fundamentais de qualquer jogo do faz de conta) geram um fenómeno de transferência em que a personalidade do interactor é transportada de fora para dentro da caixa do espectáculo. Daí a modificação comportamental: o ego ultrapassa as barreiras da auto-censura e os esgares, as gestualidades, a atitude corporal no modo como se empunha o microfone, tudo contribui para gerar uma projecção mítica que é a corporização da imagem mental de um cantor idealizado. Todavia há neste rito de transferência pontual da personalidade uma dissonância, um pequeno senão que põe em causa a construção e o modelo: a voz raramente consegue substituir com vantagem a que foi inicialmente gravada no disco.

É interessante registar a componente pedagógica e didáctica deste género de aplicação no domínio do ensino musical. Ao começarem a cantar trechos que há muito conheciam, as pessoas cedo se aperceberam das suas insuficiências musicais ao serem confrontadas com a dificuldade em acompanhar ritmos, respeitar compassos e a entrada da orquestra. A experiência demonstrou que trechos escolhido de «karaoke» aplicados em aulas de educação musical poderão ser de alguma utilidade para professores e alunos.

Concluiu-se assim que a chamada música «karaoke» demonstra ser viável construir um sistema multimédia com uma organização interactiva e de interface capaz de responder com eficácia aos desejos do interactor.

Excerto extraído da obra Multimedia on / off-line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997.