Multimédia on-line

A passagem do estado off-line para on-line é viabilizado pelos modernos sistemas de telemáticos. A diversidade e complexidade características desta área justificam uma análise do espectro das potencialidades actualmente existentes e das suas formas específicas de aplicação. O tradicional fio de telefone, as ondas hertzianas, o cabo coaxial, a rede digital com integração de serviços (R.D.I.S.) e a fibra óptica são o cascalho e o betume das mediáticas auto-estradas da comunicação. A largura de banda específica a cada uma delas determina a capacidade do fluxo da informação que transita pelas diversas faixas, em ambos os sentidos. É possível organizar sistemas de tráfego em modalidades diversificadas, sendo que é a modulação do sinal emitido e a sua taxa de compressão que vão quantificar o número máximo possível de bits emitidos em cada débito de informação. A largura de banda de um sistema digital de telecomunicações mede-se pelo número de bits que se podem transmitir por segundo através de um dado suporte físico. Refira-se, a título de exemplo significativo, que uma emissão de 64 Kbits/s representa um débito mais do que confortável para transmitir dados sob a forma ASCII, imagens fixas com boa qualidade, vídeo de qualidade inferior e algum som; 1,2 Mbits/s é suficiente para música com qualidade CD e vídeo com qualidade superior ao que se obtém nas cintas magnéticas VHS; 4,5 Mbits/s é suficiente para a emissão de vídeo em sistema broadcast.

O vídeo e audio que transitam pela rede são compactados com recurso a algoritmos de compressão que eliminam as informações redundantes, o que permite uma economia de escala e uma economia de tempo. Além da técnica de compressão, utiliza-se também o Modo de Transferência Assíncrona (A.T.M., em inglês). Esta técnica transformou profundamente o modo de transmissões da informação tradicional: em vez de se ocupar toda a linha com a voz, tal qual acontece actualmente no telefonema, ou a largura da banda hertziana na emissão de televisão analógica por cabo, lançam-se na rede pequenos segmentos de informação cada um deles identificado com uma etiqueta indicando os nomes e moradas do remetente e do destinatário. É desta forma que, os routers identificam os segmentos e os encaminham na direcção pretendida. Assim fragmentada, a informação viaja na rede, tal como se viajasse numa cadeia de montagem de uma fábrica dirigida por robots. A linha de montagem desloca-se a uma velocidade constante seja qual for o número de unidades que entram e saem. Chegados ao seu destino, os segmentos de informação são reconstituídos na sua configuração inicial e, quando necessário, procede-se à sua descompressão.

A melhor forma de enviar mil milhões de bits em modo A.T.M é organizar mil pacotes de um milhão, sendo que cada segmento de informação é enviado e recebido num milionésimo de segundo. No caso da televisão pode-se assim receber uma hora de vídeo apenas em alguns segundos com recurso, com atrás se afirmou a técnicas algorítmicas de compressão de dados.

Esta perspectiva revolucionou o estado dos media. O golpe de estado técnico A.T.M. subverteu os fundamentos das formas tradicionais de distribuição da informação. A difusão dos bits nada tem a ver com o ritmo ao qual os consumimos. Creio que neste campo não será desajustada a utilização da expressão revolução tecnológica para caracterizar o contributo do sector para a mutação que se registou nas formas de transmissão à distância.

A descoberta de suportes físicos diversificados que potenciam a velocidade e o espectro de possibilidades de transmitir comunicação conheceu um enorme incremento com o advento da fibra óptica. É em rigor difícil determinar o seu débito. O consenso dos técnicos especializados em torno do tema estabeleceu um número próximo dos mil milhões de bits por segundo, o que significa que uma fibra do tamanho de um cabelo pode emitir em menos de um segundo todos os números do jornal de Wall Street, desde a sua criação e, simultaneamente, um milhão de estações de televisão. A fibra óptica é duzentas vezes mais poderosa que o fio de cobre e é mais barata que aquele, mesmo contabilizando o custo da electrónica que é necessário instalar em cada uma das suas extremidades.

Contrariamente ao que inicialmente se supunha, não são necessárias enormes larguras de banda para transmitir a multimédia on-line. Débitos na ordem dos 1,2 a 6 milhões de bits por segundo são suficientes para as necessidades dos sistemas multimédia actuais.

As investigações realizadas sobre a rede telefónica tradicional provaram que este suporte não está desajustado em relação às necessidades básicas de largura de banda que a multimédia on-line exige. A sigla U.T.P., (unshielded twisted pair) designa os fios que equipam as linhas telefónicas e este suporte provou não ser um canal com largura de banda débil. Nos E.U.A. existem redes de linha telefónica capazes de transportarem até 6 milhões de bits por segundo, quando equipados com um modem apropriado. Actualmente os modems mais rápidos permitem velocidades de transferência na ordem dos 38400 bauds por segundo e estão longe de esgotarem as capacidades dos fios de cobre. A grande vantagem do cobre é que este pode transportar energia, o que permite, em caso de falha dos sistemas eléctricos, que os telefones se mantenham operacionais.

A implementação da técnica ADSL veio potenciar o débito de informação através dos fios de cobre de par entrelaçado. O ADSL1 pode transmitir 1,54 Mbits por segundo e receber 64Kbits/s em 75% dos lares norte-americanos e 80% dos lares canadianos. Este débito já é suficiente para transmitir vídeo de qualidade VHS. O ADSL2 possui um débito superior e 3 milhões de bits por segundo. O ADSL3 mais de 6 milhões de bits por segundo. Caso se consiga superar a distância relativamente curta que consegue atingir com o modo de transmissão ADSL e o número de acessos simultâneos que disponibiliza, esta poderá ser uma alternativa interessante para evitar a instalação de sistemas de rede dispendiosos em países com fracos recursos económicos.

Configuração de redes: estrelas e espirais

Se a largura de banda e o  modem são dados importantes para medir a capacidade de débito de um dado canal de comunicação, a sua configuração também é essencial para determinar o modo como se transmite a informação. No espectro das possibilidades actuais existem dois modos principais de conceber e configurar uma rede: ponto a ponto e ponto multiponto.

A radiação metafóricamente representada pela estrela caracteriza a configuração ponto a ponto. As linha telefónicas tradicionais utilizam este tipo de ligação directa e bidireccional, ou seja, das casas para a central e da central para as casas. Dado que as centrais estão globalmente conectadas entre si, é possível realizar todo o tipo de comunicação à distância. Os modernos sistemas de comutação acrescentaram poder e capacidade de débito tanto à configuração em forma de estrela como à que é simbolizada pela espiral.

Este segundo modelo possui uma metáfora acessível na imagem das fitas que adornam as árvores de Natal. Os sistemas de televisão por cabo adoptam o sistema ponto a multiponto na medida em que a informação distribuída é sempre a mesma, entra em casa de um assinante que a usufrui no seu televisor, passa deste para a do mais próximo e assim sucessivamente. A natalícia fita em espiral tem penduradas no seu trajecto bolas decorativas, ou seja, televisores com luminâncias e crominâncias diversas mas que recebem um tipo de «luz» idêntico mesmo se os programas de cada canal são diversificados.

A opção por um dado tipo de configuração decorre da natureza dos conteúdos: no caso das redes telefónicas e informáticas cada comunicação individual é diversa da outra pelo que a natureza destas operações exige um vasto sistema de ligação ponto a ponto. Contudo, as companhias telefónicas e algumas firmas especializadas em telecomunicações desmultiplicaram novos modelos de comutação e ligações especiais a fim de satisfazerem uma procura sofisticada e que levanta problemas específicos, para resolver situações particulares. Espera-se que dentro de algum tempo a maior parte da rede de cabo tenha adoptado a arquitectura em estrela salvaguardando a metáfora da arborescência para os locais e situações em que a transmissão for comum de muitos.

Excerto extraído da obra Multimedia on / off-line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997.