Televisão digital por satélite
Analisados os modos de emissão de televisão interactiva por teledifusão hertziana e por cabo, impõe-se uma referência às emissões por satélite, dada a importância estratégica de que se revestem num futuro próximo. Desde que os soviéticos lançaram o primeiro Spoutnik, em 1957 a tecnologia destes aparatos não cessou de melhorar, tanto no que concerne a motorização propulsora como a técnica de lançamento e a sua fixação em órbitas geo-estacionárias. Logo nos primórdios das emissões de televisão as antenas retransmissoras posicionaram-se em pontos altos, a fim de poderem atingir a maior extensão geográfica possível. Porém, dadas as limitações de propagação das ondas hertzianas cuja difusão em linha recta dificulta a recepção, cedo se deduziu que quanto mais alto estivesse colocado o retransmissor, tanto maior seria o cone geográfico por ele abrangido. Com o aperfeiçoamento do sistema de telecomunicações do satélite, depois de se colocar uma unidade a 36.000 quilómetros de altura em posição geo-estacionária, ou seja, rodando à mesma velocidade que a Terra, consegue-se cobrir uma extensão de território que ultrapassa as fronteiras da maioria dos países.
O princípio de funcionamento da emissão recebida via satélite é simples de descrever nas suas linhas gerais: o programa de televisão é encaminhado por via hertziana da régie onde é realizado para a estação emissora (uma grande antena) que o envia para o receptor do satélite. Aí, os sinais do programa são amplificados e reemitidos para a Terra onde são captados por antenas parabólicas. O diâmetro da parábola é determinado em função do ponto geográfico em que se situar o receptor: ele aumenta à medida que a situação geográfica se desloca do centro do cone de emissão para a sua periferia. Uma vez captada a emissão pela antena parabólica, esta faz convergir as ondas provenientes do satélite para a cabeça de recepção e respectivos circuitos de amplificação.
A qualidade da recepção é determinada por um conjunto de factores de entre os quais se destacam os ruídos siderais provenientes do espaço (por exemplo, o ruído emitido por quasars), os ruídos térmicos decorrentes das radiações solares e os ruídos atmosféricos, principalmente os que são provocados pelas tempestades. A relação entre o sinal televisivo e o ruído a ele associado, expressa em debicéis, determina a qualidade da recepção. A recepção será tanto melhor quanto mais elevada for essa relação. A qualidade do receptor de emissões de satélite também desempenha um papel fundamental na medida em que ele tem como função captar os sinais e transformá-los em frequências mais baixas de audio de vídeo e de dados.
O receptor necessita de estar equipado com funções de busca e memorização das diversas frequências dos canais, bem como de um posicionador motorizado para a antena a fim de poder sintonizar outros satélites. Os receptores mais sofisticados incluem um descodificador das emissões que exigem assinatura.
A televisão digital via satélite já é uma realidade nos Estados Unidos desde 1994, data em que a Direct Television iniciou a sua programação difundindo 175 canais a partir de três satélites, dos quais um terço é codificado no sistema PPV (pagar para ver). O primeiro sistema de televisão digital via satélite foi desenvolvido pela firma Hugues Electronics filial do primeiro construtor mundial de automóveis, a General Motors. A firma Hugues Electronics já anunciou a intenção de começar a difundir para a Europa a sua Direct Television utilizando os canais do satélite Astra 1D para cobrir o território europeu com 20 emissões norte-americanas. O Canal Plus alugou canais nos futuros satélites de difusão directa Astra 1E e Astra 1F.
O projecto europeu ADTT (Advanced Digital Television Technologies) reune 35 parceiros oriundos dos 12 países da comunidade. Iniciado em Junho de 1994 este projecto tem como objectivo terminar até finais de 1996 toda a cadeia de Televisão de alta definição digital que compreende circuitos integrados, receptores tratamento de sinais, descodificadores e arquitectura do sistema. Esta comissão aderiu à norma internacional MPEG 2 e consignou o objectivo de conseguir uma codificação de transmissão de TVHD a menos de 20 Mbits/s.
A norma MPEG 2 é uma evolução do MPEG com que a multimédia off-line trabalha desde 1992. Uma das características desta segunda versão da norma é o facto de ela admitir uma qualidade variável para a imagem digital que será função da aplicação a que for dedicada. Assim, foram definidos três perfis: um perfil principal, um perfil SNR e um perfil espacial.
O perfil principal da norma admite quatro variantes: LD (low definition) a 1,5Mbit/s, a SD (standart definition) a 3 Mbits/s, a ED (enhanced definition) a 7 Mbits/s e a HD (high definition) a 15 Mbits/s.
O perfil SNR admite poderem associar-se dois níveis de definição, por exemplo o standart e o de alta definição, obtendo-se assim 1,5+15 Mbits/s.
O perfil espacial admite a associação de três níveis diferentes de definição, por exemplo, SD+ED+HD= 3+7+15, o que equivale a um total de 25 Mbits/s. A adopção internacional da norma pressupõe ter acabado o divórcio no ménage à trois que dividiu europeus, americanos e japoneses e as normas que campearam até hoje NTSC, Pal e Secam irão progressivamente dar lugar a uma única, comum para todo o planeta. Porém, a substituição do parque instalado de televisores ainda irá demorar alguns anos pelo que creio ser interessante analisar que tipo de novos receptores irão aparecer até ao final do século.
Excerto extraído da obra Multimedia on / off-line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997.