Sistemas de televisão interactiva em arquitectura modular aberta
Em Maio de 1991, os engenheiros da Video Cipher, laboratório de investigação situado em San Diego e pertencente à multinacional Texas Instruments, realizaram pela primeira vez uma experiência que tanto europeus como japoneses consideravam irrealizável: a transmissão de uma emissão de televisão digital. A base dessa primeira experiência consistiu em tratar o sinal de televisão do mesmo modo como se tratam os sinais dos discos compactos, ou seja o código binário 0 e 1. A transmissão realizada nos 6 Mhz de largura de banda, comum à televisão tradicional, foi realizada com recurso à compressão de dados, que aliás também é comum na prática de vídeo digital segundo as normas em vigor (MPEG 1, DVI, AVI, etc). Essa compressão permitiu eliminar o máximo das informações redundantes que parasitam o sinal analógico e foi assim possível realizar a primeira emissão de televisão digital.
A irrupção do mundo digital no campo da televisão alterou substancialmente o cenário e os actores envolvidos neste domínio: produtores de programas, operadores de telecomunicações, operadores de cabo, indústria informática, indústria electrónica aliam-se para melhor se adaptarem às novas tecnologias e às novas estratégias que definirão os conteúdo da televisão interactiva. Este sistema de alianças tem como objectivo determinar o posicionamento dos actores acima mencionados no proscénio deste novo terreno comum de representações interactivas, tanto no que diz respeito a grupos de produção, como a redes de distribuição, indústria de programas e indústria de televisores e/ou monitores de computador.
Tal como acima se afirmou, as grandes firmas construtoras de aparelhos de televisão começaram a evoluir da teledifusão hertziana em modelo analógico para a televisão digital prosseguindo linhas de investigação que privilegiam a problemática exclusivamente técnica da qualidade da imagem (resolução, frequência e forma do écran) e da qualidade do som digital sem definirem como questão central o problema dos conteúdos. Porém, neste caso, as duas vertentes do problema estão intimamente associadas, como a seguir se vai procurar demonstrar.
A partir do momento em que o trespasse analógico ceder, progressivamente, o lugar ao digital estreitam- se e confundem se os limites que até agora separavam a televisão e a informática e, em particular, com a sua vertente multimediática. A diluição de fronteiras verifica-se tanto ao nível dos materiais como do software, pelo que a emergência de televisores que possuem sofisticados computadores no seu interior, ou de computadores que integrem um sintonizador de televisão analógica dentro da caixa é já uma realidade de mercado.
Hoje preconiza-se que os futuros aparelhos de televisão, alguns dos quais já comercializados em Portugal por firmas como a Apple, a Siemens/Nixodorf, a Fujitsu e a Compac, sejam baseados em computadores evolutivos capazes não só de se adaptarem progressivamente às modificações tecnológicas como (ainda e sobretudo) às novas formas de difusão dos conteúdos. Realizados alguns ensaios com estas máquinas, conclui-se que elas apenas são uma primeira aproximação ao conceito de televisão interactiva, uma vez que ainda não estão equipadas para receber emissões integralmente digitais nem a largura de banda é, por enquanto, suficiente.
Porém, a arquitectura aberta e modular dos futuros aparelhos permite conceber e pôr em prática um sistema de geometria variável para cada receptor que será equipado em função dos desejos do possuidor e das suas necessidades de crescimento futuro. A oferta do mercado disponível em Portugal consiste na aquisição de uma máquina que, para além de receber os programas da televisão tradicional através de um sintonizador analógico, já permite aceder a telecomunicações (fax, modem, acesso à Internet), bem como à multimédia off-line, através do leitor incorporado de discos CD-ROM. Esta oferta é sustentada sobre uma CPU evolutiva que dispõe de um processador Pentium, ou superior equipado com uma memória RAM confortável e com um disco rígido de boa capacidade. A arquitectura modular aberta actualmente disponível vai permitir num futuro próximo a aquisição de descodificadores digitais para instalar na placa mãe do sistema televisivo de modo a que este possa transitar sem sobressaltos da televisão analógica para a digital.
As placas de vídeo digital com que a multimédia off-line já trabalha há alguns anos permitem resolver o problema do entrelaçamento da imagem, da sua frequência, da forma do rectângulo na relação largura/altura, etc. Se a resolução é uma variável importante, a tecnologia digital pode rapidamente aproximar-se das 1125 ou das 1250 linhas, máximo que o tubo catódico actualmente suporta, até se poder alcançar a resolução de 10000 linhas suportadas apenas pelos écrans planos ainda em fase de comercialização primária.
No caso das estações emissoras que disponham de um sistema de portagem (PPV - pagar para ver ) a «caixa negra» que actualmente é objecto de disputa entre várias empresas evoluirá para mais uma placa a inserir na slot respectiva, permitindo assim acesso ao canal codificado.
As grandes multinacionais que produzem unidades para o mercado dos televisores e unidades para o mundo da informática estão excelentemente posicionadas para a progressiva substituição do parque instalado de receptores. O saber de experiências feito que a multimédia off-line propiciou conduz à conclusão de que os computadores estão melhor equipados para trabalhar o vídeo digital, graças ao poder de processamento das suas placas gráficas, além de que quando devidamente equipadas com programas específicos e uma linha RDIS com 64 ou 128 Kbits de débito, já podem operar em regime de teleconferência doméstica, a custos relativamente acessíveis.
O modo como a teledifusão vai evoluir aponta no sentido da distribuição da informação digital por pacotes diferenciados circulando a grande velocidade dos servidores para as máquinas ATM e estas encaminharão os segmentos de informação para o endereço do utilizador que a eles deseja aceder. Os suportes das chamadas autoestradas da informação serão bastantes diversificados e tal como no mundo rodoviário não se prevê que exista um tipo único de via: existirão grandes auto-estradas, estradas principais, caminhos e, eventualmente, veredas. A metáfora traduz os suportes físicos já existentes: fibra óptica, rede digital com integração de serviços, cabo coaxial e fio de cobre do telefone tradicional. A informação assim veiculada deixará de ser mass media para passar ao estatuto de self media.
Na óptica do consumidor este processo permite-lhe aceder, por exemplo, às informações do telejornal que poderão ser vistas no momento que se desejar. O seu televisor interactivo vai lhe proporcionar o visionamento de um jogo de futebol que pode ser analisado escolhendo a câmera e a perspectiva que mais lhe agrada e, se desejar finalizar a sua noite vendo um filme, a companhia telefónica poderá debitar em poucos segundos o filme que se deseja ver a uma hora previamente escolhida.
Dada a diversidade de agentes difusores e respectivas normas, será a arquitectura aberta e modular dos aparelhos de televisão baseados nos computadores capaz de descodificar os bits de endereço que lhe dirão qual o tipo de resolução, de frequência de varrimento, da relação largura/altura em que a emissão que se deseja receber vem codificada. Esses bits tanto poderão conter o algoritmo de descodificação da emissão PPV (pagar para ver) como o algoritmo que permite escolher qual o idioma em que se deseja ouvir um determinado programa.
Os aparelhos de televisão que o mercado hoje oferece apenas permitem controlar volume, crominância, luminância e pouco mais. Os receptores informatizados de amanhã permitirão modificar conteúdos e tempos de acesso à informação. Excepção feita a alguns acontecimentos desportivos, culturais e políticos (a noite do resultado das eleições, o concerto ao vivo ou o jogo de futebol que são e serão apreciados em directo) sabe-se que a esmagadora maioria dos programas é emitida em diferido. Esta evidência favorece os sistemas digitais pois permite a descarga da informação pelo cabo coaxial, ou pela fibra óptica a um ritmo que não terá qualquer incidência na forma como essa informação vai ser vista e manipulada pelo telespectador. É deste modo que a televisão se pode transformar num média selectivo que em vez de apenas mostrar, ou ser montra de novidade que se desvanece na rapidez do tempo unilinear, irá finalmente permitir o acesso selectivo já mais próximo da revista e do jornal que se pode folhear sem ritmo nem tempo preconfigurado pelo director de programação.
Esta função situada próxima do topo da pirâmide hierárquica dos chamados decision makers exerceu desde o início das emissões de televisão um papel semelhante ao deus ex-machina das tragédias clássicas. É ele quem ainda hoje determina os horários em que vão ser exibidos os programas. Porém, a referência a uma das funções dramatúrgicas da tragédia clássica justifica-se também porque a pseudo-omnipotência deste deus ex-machina é fortemente reduzida pela real omnipresença do share de audiências, esses números mágicos que os patrocinadores publicitários desejam sempre conhecer e que, em última análise, determinam realmente a posição relativa de cada programa na grelha respectiva, independentemente dos gostos pessoais do director de programas, ou das suas opções estéticas, políticas ou religiosas.
Dentro de alguns anos creio que os nossos descendentes vão ter dificuldade em compreender por que razão boa parte da organização das refeições e da vida familiar girava em torno do pre ou post noticiário do fim da tarde, ou da pre ou post emissão da novela da 20:30 horas. A Sociologia terá neste domínio mais um campo de investigação a desenvolver que, creio, só o afastamento em relação ao fenómeno e a patine dourada com que tempo costuma empoeirar e arrefecer as discussões e as paixões temporais irão consolidar como área de trabalho susceptível de dimensionar o real impacto da televisão tradicional nas suas virtudes e defeitos.
Excerto extraído da obra Multimedia on / off-line, de Carlos Correia, Ed. Notícias, Lisboa, 1997.
Para aprofundar o tema: